A pirotecnia da política

Dória e Regina Duarte: flash garantido

por Julio Codazzi

A cada dois anos, um já conhecido fenômeno se repete Brasil afora.
Um dia depois das festas de Réveillon, sempre marcadas por queimas de fogos, outro espetáculo pirotécnico invade as cidades do país.

São provocados por nossos novos governantes, que costumam começar seus mandatos com ações mirabolantes, por vezes quase circenses, e que parecem pensadas mais pelo seu potencial de marketing do que pelo valor como política pública.

Em janeiro de 2015 foi a vez de presidente, senadores, deputados e governadores. Em 2019 tem mais deles.
Agora, em janeiro de 2017, quem comanda o show são prefeitos e vereadores.

Como a crise financeira é a mesma em todo o país, eles parecem seguir a mesma cartilha. E vale tudo para tentar passar a imagem de que esse novo governo terá mais zelo pelo dinheiro público do que a gestão que acabou.
Por todo o Brasil, as manchetes dos jornais trazem ações semelhantes: redução do número de secretarias, ordem para corte de despesas, controle do uso dos veículos oficiais. Essas são as mais comuns. Em alguns casos, também há propostas como devolução dos salários, abdicação de verbas de gabinete, de celulares corporativos, e outras coisas mais.
Se todo esse pacote puder ser acompanhado de algo que renda uma boa imagem -- como um político vestido de gari, por exemplo --, melhor ainda.

É óbvio que qualquer ação que leve ao corte de despesas não é uma medida desnecessária. 

Pelo contrário. Em todos os cantos do Brasil, os políticos gastam mal nosso dinheiro.
Mas o fato é que essas ações de começo de mandato têm muito mais valor simbólico do que prático. Quem puxar pela memória vai lembrar que em janeiro de 2013 acontecia algo parecido. Os políticos que assumiam as prefeituras e Câmaras pelo país também prometiam fazer tudo diferente. Eram contra a ‘velha política’. Iriam economizar. Deu no que deu. Fora alguns poucos bons exemplos -- poucos mesmo, e alguns nem conseguiram se reeleger --, os governantes que eram apostas há quatro anos chegaram despedaçados ao fim do mandato.

E por que isso aconteceu?

Porque as ações de começo de mandato eram pura pirotecnia mesmo. As despesas foram cortadas em janeiro de 2013, mas em fevereiro já usavam os cargos públicos para encostar aliados, barganhavam emendas ao orçamento em troca de apoio político, faziam acordos de bastidor para abafar CPIs, realizavam licitações fraudulentas...

A ideia desse texto não é ser pessimista, mas lembrar que se iludir também não é o melhor dos caminhos.
Para ser bom governante não é preciso fazer nada fora do comum, nem criar um programa extravagante, de nome pomposo. Não é isso que vai dar para o morador o que ele precisa.
É por isso que cabe ao eleitor o papel de cobrar que seu governante mantenha o mesmo espírito nos 48 meses de mandato.

O show do Réveillon é bonito, mas o resto do ano não é só de festa. Nossos políticos têm se mostrado melhores em pirotecnia do que em administrar. Se a carruagem virar abóbora outra vez, em janeiro de 2021 assistiremos mais queimas de fogos de novos prefeitos e vereadores.

Julio Codazzi é editor de Política do jornal " O Vale". Este artigo foi publicado originalmente na edição de 21 de janeiro desse jornal
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2 comentários:

  1. A "pirotecnia" provoca manchetes em veículos de comunicação, o que não acontece se o governante da vez cumpre seu mandato como deve. As boas ações não são divulgadas.

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  2. será que não, Eurídice? acho que se criou um círculo vicioso, pautado pelo marketing político, que acaba esvaziando o que realmente é boa ação. virou tudo meio propaganda de margarina, sabe? é uma pena. eu acho que boa notícia é notícia, ao contrário da regra que diz que só desgraça atraia atenção.
    mas esse é um bom tema de debate

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