Brasil, um país sem valores?


Por José Tadeu Gobbi
Cresci numa família matriarcal. Minha mãe foi meu referencial de pai e mãe ao mesmo tempo. Católica fervorosa sempre teve valores rígidos. Honestidade para ela nunca teve nuances. Sempre foi parte essencial da conduta em tudo na vida, em casa, na escola, no trabalho, no convívio social. Você não tinha escolha. Mentir era uma afronta imperdoável. O que é seu é seu e o que é dos outros é dos outros. Se você quer algo para si trabalhe e conquiste com seu suor. Se você quer mudar sua vida, estude, dispute seu espaço com honra. Não inveje teu amigo, nem teu vizinho. Seja melhor que eles com seu esforço. Não faça concessões ao vício. A virtude é sempre o caminho.
Faço esta introdução para justificar minha dificuldade em assimilar os valores pelos quais a sociedade brasileira se conduz atualmente. Vejo amigos e pessoas absolutamente íntegras aceitarem com naturalidade que em Brasília tenhamos substituído uma organização criminosa por outra no governo. Ignora-se que o PMDB foi sócio e cúmplice do PT nos últimos 13 anos e esta com seus próceres sendo acusados pelos mesmos crimes. O banditismo estatal é dividido em categorias, umas são toleradas por conveniência da recuperação da economia e outras são punidas para servir de exemplo. A mentira, mesmo a mais descarada, é aceita como regra do jogo.
Não consigo crer que tenhamos nos tornado tão cínicos e canalhas que, observando este quadro, não sejamos incomodados por um desconforto moral. Porque se a honestidade tem um valor na sociedade tudo o que vemos hoje no país é inaceitável. Não é isto o que ocorre, todavia. Parece natural que leis sejam aplicadas com pesos diferentes de acordo com a origem do individuo ou sequer sejam aplicadas se o cidadão visado esta do nosso lado.
A cultura da esperteza

Fico pensando se não estou sendo bisonho ao questionar tudo isto. Não consigo entender o que ganhamos com esta cultura nacional da esperteza. A propósito, esta cultura provoca fenômenos sociais interessantes.
Por exemplo, somos uma sociedade que despreza o sucesso. Ser bem sucedido no Brasil é quase um crime. Provoca inveja e um raciocínio do tipo “aquele sujeito se deu bem, achou uma boquinha, conseguiu uma mamata, sacaneou alguém”. Não se reconhece o mérito, o talento, a capacidade de alguém ser bem sucedido pelo trabalho, pelo esforço, pela competência. O raciocínio é sempre que o cara se deu bem, foi esperto, deu um jeito. Temos profunda desconfiança do sucesso.
A evolução pelo mérito, comum em sociedades avançadas, parece ter fracassado no país. Somos uma sociedade que dá pouco ou nenhum valor para professores, educadores, cientistas, pesquisadores e todas aquelas profissões nas quais as pessoas tem que estudar muito e dar duro por anos para conquistar alguma coisa. No Brasil tudo tem que ser rápido, sem esforço, porque aqui tudo se ajeita, trabalhar é para os trouxas.
O que admiramos, educação?

Queremos que nossos filhos tenham boa educação, mas não reconhecemos o valor de nossos professores. Amamos o policial violento, aquele que mata quem nos incomoda. Não aquele que é eficiente em resolver crimes. Endeusamos jogadores que se dão bem na vida pulando etapas como a educação. Comentamos com regozijo quando, mesmo ganhando fortunas em contratos internacionais, levam nossa malandragem para o exterior e dão golpes na receita dos países que os acolhem.
Não nos incomoda ver políticos e castas do serviço público terem privilégios absurdos e imorais, típicos de republiquetas absolutistas. Aceitamos os serviços degradantes que recebemos apesar de pagarmos absurdamente caro por eles com impostos arrecadados, sobretudo dos mais pobres.
A hipocrisia com prestígio social

Nossa hipocrisia também é ilimitada. O mesmo empresário que frauda uma licitação e suborna um agente público impõe em sua empresa regras de compliance rigorosíssimas. O comerciante que embala frutas impróprias para o consumo numa embalagem onde frutas maravilhosas escondem aquelas podres exige que o funcionário orientado a proceder desta forma tenha um comportamento íntegro. O mesmo cidadão que compra CDs e softwares piratas deseja que seu projeto, no qual investiu tempo e esforço, não seja copiado e subtraído. O sujeito que estaciona em vaga de deficiente no shopping é acometido de ira santa se alguém estaciona na frente da sua garagem.
Os exemplos são incontáveis. Invariavelmente quem comete estas infrações goza de prestígio social. Somos um país onde o esperto é ao mesmo tempo otário, porém alienado de sua condição de agente desta cultura e de exercer os dois papéis ao mesmo tempo.
Como nos tornamos tão cínicos e hipócritas é um fenômeno que precisa ser estudado. Tenho dificuldade em viver num país assim. Não questiono minha mãe pelos valores que me transmitiu, mas constato que eles me transformaram num cidadão vulnerável neste tipo de sociedade.


José Tadeu Gobbi é publicitário, consultor na Target 32 Comunicação e Marketing
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