Prefeitos imperfeitos

Dória vive dia de gari (Zanone Faisal/FP)

por Marcos Meirelles

O que os novos prefeitos podem fazer diante da crise econômica que assola o país e compromete cada vez mais as finanças dos municípios? 
A resposta é simples: cuidar das cidades.

Essa frase de significado desprovido de ousadia envolve, no entanto, grandes desafios.

O primeiro deles, naturalmente, deve ser o compromisso com o equilíbrio fiscal. Sem as receitas e as despesas equilibradas, os prefeitos jamais vão conseguir manter a oferta de serviços básicos à população. Com isso, não poderão igualmente ter credibilidade junto a fornecedores e prestadores de serviços, que hoje são peça essencial da engrenagem pública.
Em São José, Felício Ramuth fez uma aposta ousada ao unir despesa e receita em uma única secretaria. Em uma experiência nova, que exige do responsável pelo setor a estrita confiança do prefeito e uma enorme capacidade de discernimento sobre as demandas das secretarias fins. Se vai dar certo, só o tempo dirá.

O segundo desafio e não menos importante é o do compromisso com a zeladoria urbana.
As pessoas querem as cidades limpas, arborizadas, bem iluminadas, com o trânsito funcionando de modo civilizado e com espaços de convivência e lazer valorizados. Parece simples, mas, de norte a sul do país, o que mais se vê são prefeitos negligenciando essas necessidades básicas dos moradores.
A maioria dos prefeitos não dedica nem um décimo do seu tempo à manutenção dos espaços públicos. Deixaram de lado o arroz com feijão e foram convencidos pelos marqueteiros de plantão que era preciso inventar projetos e obras mirabolantes, capazes de criar marcas positivas para as suas gestões. 

Mas por quê marketing e zeladoria não podem se falar?

O prefeito de São Paulo, João Doria, vestiu roupa de gari e saiu às ruas para comandar um mutirão de limpeza nas principais avenidas e viadutos e pontes da capital paulista. Milhares de internautas aplaudiram a iniciativa, ressaltando a importância um olhar mais carinhoso em relação à cidade.
Será uma ação de efeito duradouro ou apenas um factoide pós-posse? Isso só o tempo dirá. Se Doria avançar nas ações de zeladoria urbana, buscando propostas inovadoras para questões como o aumento da população em situação de rua, no entanto, pode efetivamente se projetar como o “CEO de São Paulo”,  o “gerentão” de perfil técnico que todos os prefeitos hoje almejam ser.

Dito isso, devemos supor que os novos prefeitos podem negligenciar áreas sempre consideradas prioritárias, como a saúde e a educação? De modo algum. Só que não dá para abraçar o mundo pelas pernas. É preciso que os municípios cuidem, de modo correto e eficiente, daquelas que são suas atribuições essenciais, mesmo em se tratando de saúde e educação.
Cidades do porte de São José, naturalmente, já se responsabilizam integralmente pela atenção à saúde no âmbito do SUS. Na área de educação, no entanto, é preciso compartilhar obrigações com o Estado e o governo federal, de forma responsável. Só assim a prefeitura dará conta de atender toda a demanda da educação infantil, essa sim a sua atribuição primordial.

Não é necessária uma cartilha de boas práticas para que os prefeitos saibam qual o melhor caminho a percorrer. Não é preciso um mago do marketing. A experiência de campanha de 2016, por mais curta que ela tenha sido, já trouxe os indicadores necessários.  

O eleitor mudou. Os políticos precisam mudar.

Aqueles que trilharem novamente a seara da soberba e da tutela do eleitorado estão fadados ao fracasso até 2020. A consciência da imperfeição, neste caso, é o primeiro passo para uma gestão mais próxima da população.

Marcos Meirelles é jornalista e conhece como poucos a política da Região Metropolitana do Vale do Paraíba 
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