Uma história em dois atos

Qual o tamanho do rombo?


Transição de governo quase sempre  tem guerra de números e versões.
O prefeito que entra denuncia um “rombo” milionário e a necessidade de medidas radicais para enquadrar os gastos e pagar as contas. O prefeito que sai nega tudo: diz que deixou dinheiro em caixa e que as queixas do sucessor são pura politicagem.

Quem tem razão?

Não há regra, cada caso é um caso.
E aviso: ainda não me debrucei exaustivamente nas contas da Prefeitura de São José para poder afirmar quem tem razão. Estou fazendo contas, mas ainda não terminei. Mas aproveito a onda para lembrar de duas histórias vividas em transição de governo em São José, que mostram que, em tempo de mudança, tudo é permitido.


Cena 1

Quando tomou posse, Angela Guadagnin (PT) acusou seu antecessor, Pedro Yves Simão (PRN, depois PMDB), de ter arrebentado com as contas da prefeitura. Era início de 1993.
Não havia, segundo Angela, dinheiro para tocar o dia a dia da rede de Saúde.
Como medida de urgência, a prefeita decidiu decretar estado de calamidade na Saúde, permitindo que verbas de outros setores e empréstimos de urgência pudessem ser drenados para o setor que estava, segundo ela, na pindaíba.

A medida entraria em vigor numa segunda-feira.

No domingo, a “Folha Vale”, caderno regional da “Folha de S. Paulo”, que eu estava editando à época, publicou o número de uma conta no Banco do Brasil e o saldo aproximado com a soma dos repasses feitos pelo governo federal, verba carimbada para a Saúde de São José. O valor na conta do BB dava para cobrir, com sobra, o “rombo” na Saúde apontado por Angela.
Com um detalhe: acredite se quiser, ninguém no governo do PT sabia da existência da conta. Como a “Folha” soube? Por uma fonte do governo Yves, que conhecia, como ninguém, o caminho das pedras.

O decreto de emergência morreu no nascedouro ...

Cena 2

Considerado por muitos como o melhor prefeito de São José, Emanuel Fernandes (PSDB) assumiu a administração em 1997 também com o caixa baixo.
Seu vice-prefeito, Ednardo de Paula Santos (PL), que acumulava a função de secretário da Fazenda, pintava números assustadores, com uma previsão sombria: a prefeitura fecharia o ano com um déficit nas contas tamanho o “rombo” deixado pelo governo Angela Guadagnin. Emanuel botou o pé no freio e fechou as torneiras.

Mas, apesar do caixa ruim, os números de Ednardo não fechavam.

Como editor da “Folha Vale”, resolvi acompanhar por um tempo os balancetes afixados no mural da Secretaria da Fazenda. Ia lá diariamente, com caneta e bloquinho.
Anotava, anotava, anotava. Depois, na Redação, me perdia em contas, contrariando a máxima de que jornalista não gosta e não sabe de matemática. Eu sempre gostei. Noves fora tudo isso, meus números mostravam um resultado diferente dos de Ednardo.
Quem tinha razão?

Emanuel chegou a marcar uma reunião entre ele, eu e Ednardo no Paço. Foi uma das raras vezes que estive no gabinete do prefeito nas gestões do PSDB.

Dois teimosos, eu e Ednardo não abrimos mão das nossas convicções. Foi aí que Ednardo, de quem gosto muito, lançou o desafio: se ele estivesse errado, se as contas de 1997 não fechassem no vermelho, ele deixaria a Secretaria da Fazenda. Bem, as contas fecharam no azul. Raspando, mas no azul. Ednardo saiu da Fazenda logo após. Não creio que tenha sido pelo desafio malogrado. Mas que saiu, saiu ...


O que isso tem a ver com a situação atual?
Nada. E tudo. Citei outro dia, em outra crônica, uma citação de Confúcio que diz: se você quer predizer o futuro, estude o passado. A gente aprende. Ou, pelo menos, se diverte. 
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