A revolta passageira


por Julio Codazzi

No começo de 2013, no início do primeiro mandato de Ortiz Junior (PSDB) como o prefeito de Taubaté, fui entrevistá-lo sobre uma denúncia feita pelo PT sobre a cor escolhida para a pintura das Escolas do Trabalho: o amarelo, com símbolo do PSDB.


A resposta foi: “isso é bobeira do PT”. Perguntei então se era bobeira também a reclamação do PSDB em São José dos Campos, que criticava o então prefeito Carlinhos Almeida (PT) por pintar os pontos de táxi de vermelho, cor símbolo do PT. Acabei ficando sem resposta.


Em outra ocasião, um pouco mais adiante, eu conversava com um petista sobre a blindagem que a base governista de Geraldo Alckmin (PSDB) fazia na Assembleia Legislativa para impedir a abertura de CPIs contra os interesses do tucano.
Questionado sobre isso, ele me confidenciou: “Na verdade, nós não podemos reclamar. Nós fazemos a mesma coisa em Brasília”, disse, referindo-se à blindagem que era feita à então presidente Dilma Rousseff (PT) por deputados federais e senadores.


Essas histórias são apenas alguns exemplos de uma realidade conhecida por qualquer pessoa com o mínimo acesso aos bastidores da política.


E nem precisa ir pessoalmente a esses locais.

Os jornais mostram essa realidade dia a dia.
E o que esses bastidores mostram? Que infelizmente os principais partidos políticos agem da mesma forma. O que muda é a posição em que estão.
Se o partido está na oposição, critica tudo o que é feito por quem está na situação. Tudo. Bom ou ruim, reclama de tudo.
Se o partido passa para a situação, faz exatamente o que criticava antes. Tudo igual.


Os dois exemplos do começo do texto mostram isso: um é sobre algo banal, cor de pintura.

Mas que já é suficiente para ilustrar que a coerência é algo deixado de lado. O importante é desgastar o adversário.Afinal, que sentido faz o PSDB criticar a cor vermelha em São José, mas escolher pintar Taubaté de amarelo?
E do outro lado, a mesma coisa: o PT que criticou o amarelo em Taubaté era o mesmo que pintava São José de vermelho.
O segundo exemplo é de algo mais sério: a investigação de denúncias de irregularidades.
Quem está no poder, sempre é favorável a abafar apurações.


Em tempos de FlaxFlu, em que as pessoas trocam a razão pela emoção e passam a defender os partidos com paixão inexplicável, é papel da imprensa mostrar essas súbitas mudanças de opinião dos nossos políticos.


Um exemplo prático do fenômeno está previsto para ocorrer nos próximos dias, em São José. Felicio Ramuth (PSDB) terá que analisar o pedido de reajuste da tarifa do transporte público. Foi o PSDB que assinou o atual contrato de concessão na cidade, em 2010. Lá está a fórmula do reajuste. Mesmo assim, na gestão Carlinhos os tucanos se posicionaram contrários a qualquer revisão dos valores da tarifa. Se houver o reajuste, estarão indo contra o que pregaram de 2013 a 2016. E se não houver, estão negando o próprio contrato.
Do outro lado, os petistas: criticavam o reajuste antes de assumir, mas mudaram de ideia a partir de 2013, né? 


No ônibus sem rumo que é a nossa política, a indignação é passageira.


Julio Codazzi é editor de Política do jornal "O Vale". Este artigo foi publicado originalmente nesse jornal em sua última edição de final de semana
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