O prefeito da 'live'

Felício: quem não se comunica ...

Cada político tem a sua forma, sua marca ao governar.

Jânio Quadros, por exemplo, ficou famoso pelos seus bilhetinhos.
Nos quatro anos em que foi governador de São Paulo, Jânio escreveu mais de 40 mil deles, coletado, tempos depois, pelo chefe de imprensa de sua administração, José Pereira. A um administrador público que reclamava ser impossível gerir sua área com o orçamento previsto, escreveu: “O senhor não está aí apenas para administrar, mas também para fazer milagres.” Muita gente pensa assim ainda hoje ...

A safra de novos gestores públicos, empossada em janeiro, está cheia de prefeitos em busca de sua marca, de uma identidade política.

O campeão até aqui é o prefeito João Dória (PSDB), que administra a cidade de São Paulo com um olho em algumas boas medidas administrativas (como o Corujão da Saúde) e outro nos flashes e nas câmeras. No primeiro dia de trabalho, se vestiu de gari e prometeu limpar as ruas da cidade. Varreu uma praça que havia sido limpa na véspera por garis de verdade. Mas gostou da festa, tanto que repetiu a roupa várias vezes. E não parou por aí. Andou até de cadeira de rodas, como fez, décadas atrás, um prefeito de Taubaté, Waldomiro Carvalho. Demagogia pouca é bobagem ...

Em São José dos Campos, Felício Ramuth (PSDB), entre outras coisas, gosta de uma “live”.

Por meio de transmissões ao vivo pelas redes sociais, Felício, por exemplo, anunciou a suspensão do contrato com a Orquestra Sinfônica de São José dos Campos e o afastamento do cargo da diretora responsável por uma fila gigantesca para agendamento de consulta médica na UBS do Jardim Oriente. Assim, no vapt-vupt. Mas tem “live” para todos os gotos, direto da Secretaria da Cultura do Estado, ao vivo na inauguração de um supermercado, ao lado de secretários municipais, em visitas a empresas da cidade .

Ele chama isso de transparência.
Na prática, Felício continua a usar um recurso que adotou durante a campanha eleitoral e no período de transição, com bons resultados. E que pode ser traduzido, de forma simplista, em uma frase: ele busca um contato direto com o cidadão, olho no olho, mesmo que eletrônico, sem intermediários.

Funciona? Sim, claro. Alguns vídeos batem 40 mil visualizações. É moderno? Pode até ser. É a forma ideal? Bem, aí é outra  história ...

Para quem usa, o recurso dá amplitude a seus atos e uma sensação de democratização da informação. Bem, não é bem assim. Nas redes, apesar do Fla-Flu que cada postagem detona, Felício fala, em sua maioria, para convertidos, isto é, para pessoas que pensam como ele ou estão predispostas a concordar com ele, em sua grande maioria. Isso exclui um componente vital para o sucesso de todo governo democrático: o peso do contraditório. Ao falar, via “lives”, sobre medidas de governo, algumas bastante sérias, Felício pode correr o risco de anunciar, não dialogar; discursar, não abrir debate; falar, não ouvir.
Em resumo, por mais transparente que seja, o uso da "live" requer cuidado para não errar o tom e transformar o governo em uma espécie de reality show.

É verdade que Felício tem outras formas de ação. 
Ele conversa o tempo todo, visita escolas, unidades de Saúde, empresas, entidades classistas, está sempre na rua. Isso é salutar. Porque governar só por "live" não dá ...
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