Piscina de ratos


Com todo respeito aos deputados eleitos pelo Vale do Paraíba, o Congresso Nacional é, como dizia a música de Cazuza, uma piscina cheia de ratos.

Pior: não só o Congresso.

As investigações da operação Lava-Jato, ora conduzidas com acerto, ora com tropeços, estão tendo a função didática de revelar como funciona o mundo da política brasileira, abastecido por milhões e milhões de reais em propina, tráfico de influência, troca-troca de favores, corrupção em pequena, média e grande escala. Os valores são assustadores. O empresário Marcelo Odebrecht disse ter dado R$ 150 milhões para a campanha de Dilma Rousseff (PT) em 2014, parte em contrapartida pela aprovação da MP 470, que facilitou a renegociação das dívidas das empresas do grupo. Toma cá, dá lá com conhecimento de Dilma. E não é só: no depoimento de Odebrecht  sobra para Michel Temer, o vice que virou presidente, e para uma infinidade de partidos políticos, do PSDB ao PMDB, do PP ao PCdoB.
Não sobra pedra sobre pedra.
Enquanto a sociedade espera a prisão de todos os membros da quadrilha, os ratos tentam salvar sua pele. E, quem sabe, um naco de queijo.
Pela terceira vez estão tentando santificar o caixa 2, como se dinheiro recebido fora da contabilidade oficial fosse um pecadilho fiscal, não um crime. Não satisfeitos, inventaram o chamado voto em lista fechada, no qual o eleitor vota no partido e não em nomes avulsos. O que ocorre depois? Os votos são distribuídos de acordo com uma ordem de candidatos definidos pela direção do partido, numa espécie de terceirização do voto. Pense bem, caro leitor: você entregaria um cheque em branco a um político hoje no Brasil? Pior: isso ocorre enquanto a Procuradoria Geral da República finaliza e encaminha ao STF denúncias contra dezenas e dezenas de políticos com mandato, muitos deles donos, diretor ou indiretos, de suas siglas. Isso ocorre enquanto se fecha o certo a Luiz Inácio Lula da Silva, Antonio Palocci e Guido Mantega. Refazendo a pergunta: você daria um cheque em branco a Renan Calheiros, Luiz Inácio Lula da Silva ou Aécio Neves?
Só se você for maluco. Ou compadre deles.
Então, qual o caminho? Fechar o país para balanço? Apostar em uma intervenção militar, como sonham alguns mais exaltados?
Opa, devagar com esse andor que o santo é de barro. Rupturas institucionais são perigosas, um caminho sombrio e lamentável. O Brasil já viveu uma aventura dessas anos atrás, em 64, com um golpe travestido em revolução militar, que conduziu o país a anos de treva e chumbo. Ditadura, nunca mais, nem de direita, nem de esquerda.
O caminho é mais longo, mais difícil, mas mais correto: é o caminho da democracia. A mesma democracia que sustenta as investigações da Lava-Jato e a liberdade de manifestação, de expressão e de imprensa, a boa e velha imprensa que abastece a sociedade de informações, às vezes assustadoras, sobre o mundo dos ratos e das ratazanas. É apostar na continuidade da Lava-Jato, insistir na prisão dos quadrilheiros (que tem gente importante, como o ministro Gilmar Mendes, como seu beque-central)  e azeitar o voto em 2018, varrendo cobras, jararacas e lagartos do mapa político do país.
Um sonho?
Pode ser. Pode ser utópico, inocente ou pueril. Mas é um sonho legítimo, democrático e factível. Os ratos são muitos, mas, acredite, estão encurralados. Para desespero deles, o tempo não para.

Este texto foi publicado originalmente na edição de hoje do jornal "O Vale"
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