Uma história de amor


Em texto recente, meu filho Guilhermo enumerou entre as histórias preferidas de meu pai a narrativa do dia em que conheceu minha mãe, Maria Nívia.

Era a sua preferida ...

Antes de contá-la, até como uma narrativa para o Dia dos Namorados, é preciso dizer que meu pai, de quem herdei o nome, Hélcio, era um bom contador de histórias. Ele adorava detalhes, emoções, silêncios que ajudam a construir a história, a criar suspenses, aguçar a curiosidade. Colecionava datas, nomes, a descrição dos lugares. Talvez venha daí o gosto que boa parte da família tenha por escrever, a paixão pela boa narrativa, o interesse em livros, romances, enredos.

Bem, dito isso, retomo o fio da meada ...

Meus pais, Hélcio e Nívia, se conheceram nos anos 50 em Campos do Jordão por obra e arte do Doutor, como eu o chamava.

Ele, jovem médico, ela, secretária do ginásio de Campos do Jordão, foram, ambos, convidados, em separado, para um almoço, sábado, no antigo Sanatório das Mercês, na Vila Albertina. Um almoço festivo, que reuniria direção do sanatório, convidados ilustres, empresários, políticos, entre outros.


Almoço chique, com lugares reservados ...

Meu pai, médico jovem, filho de ferroviário, sem sobrenome tradicional e coisa e tal, chegou mais cedo e constatou que o cartão com seu nome, Hélcio Costa, estava colocado em uma mesa no fundo do salão, quase do lado de fora do sanatório, como dizia. Pior: longe, muito longe da mesa principal, onde deveria sentar a morena cor de jambo que ele queria, mas nunca conseguia conhecer, de quem sabia apenas o nome, Nívia.

Com quase salão vazio, a mágica ...

O cartão "Hélcio" mudou de mesa, quase por encanto (e uma ajudinha, claro, do dono do nome), e surgiu, assim, de surpresa, como quem não quer nada, ao lado do cartão "Maria Nívia". Quando a morena elegante chegou, o médico já estava sentado à mesa. A organizadora do almoço achou estranho:

-- Hélcio, esse lugar não é seu -- disse.
-- É sim, sentei onde estava o cartão com meu nome -- respondeu ele, sério.


Anos mais tarde, sempre que contava a arte, os olhos de meu pai sorriam e seu semblante gargalhava. O médico e a professora passaram a tarde conversando. Da conversa, passaram ao namoro, do namoro ao noivado e do noivado (com uma breve interrupção, causada por uma briga) ao casamento. Meus pais tiveram dois filhos, Stella e Eu, e seis netos: Maria Luiza, Marina, Guilhermo, Julio, Fernanda e Felipe. Brincando, o Doutor dizia que a troca de cartões evitara que minha mãe casasse com um empresário paulistano. "Sorte de vocês", acrescentava, brincalhão.

Meus pais passaram 60 anos juntos.

Eram inseparáveis até que minha mãe, a morena cor de jambo, morreu, em novembro de 2014. Meu pai morreu dois meses e meio depois. Um dia antes dele partir, já na UTI, ele me disse, pela última vez, uma das frases que mais ouvi dele em toda a minha vida: "Sua mãe é o amor da minha vida", afirmou, assim, no tempo presente.

Após a morte dos dois, quando me dediquei à tarefa de arrumar suas coisas, encontrei cartas, bilhetes, cartões escritos por eles ao longo dos anos. Cheios de declarações e juras de amor a cada data especial, almoço nas Mercês, noivado, casamento, aniversários, em todos, todos os Dias dos Namorados. O cartão "Hélcio", esse eu não encontrei. Não precisava. Ele já havia cumprido muito bem seu papel ao mudar de mesa, quase por encanto (e uma ajudinha, claro, de um jovem médico enamorado) há mais de 60 anos, em um sábado qualquer, em Campos do Jordão.

Sorte a nossa ...






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