A morte pede passagem


Ruy Rolim de Macedo morreu em Caçapava nesta sexta-feira aos 70 anos.
No enterro terá samba e cerveja. Surpresa? Nenhuma.
Afinal, Ruy não era só Ruy Rolim de Macedo. Ou melhor, Ruy Augusto Gonçalves Rolim de Macedo, seu nome completo. Ele era também Ruy do Pandeiro, jornalista boa praça, um cara que marcou época na cidade.

Agora, morreu mesmo.

Digo isso porque, anos atrás, Ruy simulou seu próprio velório. Ou melhor, fez um ensaio, de corpo presente, mas vivo, de como seria seu próprio velório. Distribuiu convites e reuniu muita gente em um clube da cidade para essa espécie de velório prévio. Virou notícia na TV. Agora, no velório para valer, a cerimônia será idêntica, com samba e cerveja. A diferença é que, desta vez, Ruy terá mudado de CEP ...

Conheci Ruy no início dos anos 80. Não éramos amigos, mas Ruy me recebeu como velho amigo (ao lado de gente que fez o mesmo, como Iara de Carvalho, Mônica Cardoso, Brasilino Alves de Oliveira Neto, José Aparício de Oliveira, Luciano Zucarelli, Ocílio e Helenita Ferraz, Flávio Nery, entre tantos outros) em meu primeiro emprego como repórter, na sucursal do antigo “ValeParaibano”, em Caçapava. Ruy tinha, à época, um jornal de-vez-em-quandário na cidade. Eu era um foca, bem foca, foca mesmo, tentando equilibrar a bola no nariz. Cá entre nós, às vezes acho que ainda sou ...

Por que tudo isso?

A morte de Ruy a poucos dias do Dia dos Pais me leva a pensar sobre nossa relação com a morte.  Fiel ao seu estilo, Ruy brincou com o fantasma da morte, fantasma que, hora ou outra, desafia a todos nós. Apesar da morte de meus avós décadas atrás, nunca havia convivido tão diretamente com essa sombra até a perda dos meus pais, há pouco menos de três anos. Minha mãe, Maria Nívia, morreu em novembro de 2014. Meu pai, Hélcio, em janeiro de 2015. Com isso, um ciclo se fechou para mim de forma natural. Convivo bem com a ausência deles, embora não passe um dia sem ter saudade de algum gesto, de alguma mania, de uma história divertida a ser contada, mesmo que pela enésima vez. Uma olhadela numa foto antiga, vez ou outra, ajuda a superar o vazio.

Meus pais estão sepultados lado a lado em Piraju, cidade onde eu nasci.
Foi a escolha deles. Ruy escolheu morrer duas vezes, a primeira 12 anos atrás para afirmar que ainda estava vivo. Eu não faço planos. Mas sei que essa escolha não depende só de mim. Só espero que não seja em breve. Só espero que eu não atravesse o samba ...

PS: À família do Ruy do Pandeiro, meu sincero pesar.

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2 comentários:

  1. O Jornalista Hélcio Costa com sua sempre-presentes elegância e fineza presta bonita homenagem ao Amigo Ruy do Pandeiro. Hélcio fico feliz da lembrança que faz quanto ao relacionamento que tivemos em seu inicio de carreira como Jornalista, especialmente quando colocado ao lado das pessoas que citou nominalmente. Carinhoso abraço. Quanto ao Ruy uma referência: Oremos!

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  2. ainda tem muita gente para citar, mas vai faltar espaço.
    obrigado pelo comentário

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