Achados e Perdidos


por Guilhermo Codazzi da Costa

Guarda-chuvas, bolsas e celulares. 

Esta é, prezado leitor, a santíssima trindade desse mundo de achados e perdidos, seja nos aeroportos, shoppings, rodoviárias ou parques. Além desses objetos tão comuns, o santuário da distração humana tem ainda itens bizarros -- outro dia, uma reportagem citava alguns desses exemplos, como uma cobra cascavel, uma dentadura, uma armadura medieval, violino de 300 anos, joias e até uma urna funerária.

Eu sempre fui expert na arte de perder as coisas. Posso dizer, sem ter medo de errar, que sou PhD no assunto. Distraído? Bom, certa vez meu ônibus sofreu um arrastão e eu nem vi. Estava olhando pela janela.

Nós mesmos, prezado leitor, somos um 'achados e perdidos' ambulante. Todos somos faróis e somos barcos à deriva. Cada escolha representa deixar algo pelo caminho e ir em busca do novo. Somos, então, uma espécie de achados e perdidos.

Clarice Lispector disse certa vez: "Só trabalho com achados e perdidos". E falando nisso...

Tempos atrás encontrei dois velhos cadernos de anotações, de 2004 e 2008, que estavam lá perdidos no meu quarto. Decidi folheá-los antes de dormir e foi como voltar no tempo, revisitar diferentes fases da minha vida. Foi como vasculhar os achados e perdidos e perceber quanta coisa mudou. Paixões se perderam, heróis mudaram de rosto e bandeira e a minha caligrafia ficou muito melhor.

No primeiro caderno, encontrei muitas páginas preenchidas, com pautas de reportagens e citações, além de desenhos e palavras perdidas. Na capa, havia escrito uma frase de William Shakespeare: "E isto acima de tudo, ser fiel a si mesmo."

Já o outro caderno, mais velho quatro anos, tinha o mesmo formato, a mesma capa e o conteúdo absolutamente diferente. O Guilhermo de 2008 era muito diferente do de 2004. O caderno trazia na capa uma citação do poeta chileno Pablo Neruda, que dizia: "E a minha voz nascerá de novo, talvez noutro tempo sem dores e nas alturas arderá de novo o meu coração ardente e estrelado."

Mas o que havia no caderno? Nadica de nada. Nenhuma página escrita. Não achei sequer uma frase ou letra perdida.

Pelo que minha memória me conta, havia muito o que dizer. Mas o Guilhermo de 2008 preferiu deixar as páginas em branco, o que o Guilhermo de 2017 não sabe explicar. Nem o de 2004 saberia. Ele havia se encontrado? Estava perdido?

Talvez nenhum dos dois. Ou os dois, quem sabe?

Afinal, somos todos um pouco achados e perdidos, não é mesmo, meu caro Neruda?

"Por que vou girando sem rodas e voando sem asas nem penas? Por que minha roupa desbotada se agita como uma bandeira? E que bandeira tremulou no espaço em que não me esqueceram? Pois não foi onde me perderam que eu me dei, enfim, por achado?"

Guilhermo Codazzi da Costa é editor-chefe do jornal "O Vale", onde esse artigo foi publicado originalmente
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