O vereador que virou Uber


A corrida de Uber era curta, do escritório ao centro da cidade. Ao abrir a porta do carro, a surpresa: no volante, Tonhão Dutra.

-- Tonhão? Ué, virou Uber?
-- Pois é, jornalista, a gente tem que sobreviver ...

Ex-vereador pelo PT em São José dos Campos, Tonhão Dutra, aos 58 anos, trocou a roupa de político e o uniforme da Urbam, que usou por muitos anos, por ganhar a vida atrás do volante de um carro. Foram 10 anos na Câmara de São José dos Campos, sempre pelo PT. Vereador por dois mandatos, cumpriu mais dois anos como suplente de Wagner Balieiro, que acabou deslocado no início do governo Carlinhos Almeida (PT) para a comandar a Secretaria de Transportes. Cargo público, assessores, carro oficial, tudo isso faz parte do passado para Tonhão. Candidato a vereador em 2016, teve pouco mais de 1.500 votos e acabou como terceiro suplente da bancada do PT, com poucas chances de assumir uma cadeira na Câmara. Culpa, segundo ele, da crise que abateu o PT de Norte a Sul.

Barrados nas urnas, decidiu, no final de 2016, deixar a Urbam, onde  trabalhou por 17 anos. Atolado em dívidas herdadas da política, viu no acordo de demissão, costurado ainda na gestão Carlinhos, uma saída. “O banco mordia tudo”, disse. Conseguiu R$ 50 mil, pagou as dívidas e resolveu, segundo ele, mudar de vida.

Começou a fazer Uber há três meses, após um período adoentado. Faz, mais ou menos, 1.000 corridas por mês e dirige, em média, 250 quilômetros por dia, com um gasto aproximado de R$ 60 de álcool para abastecer o carro. Nos três meses, calcula que seu carro já rodou uns 60 mil quilômetros. Admite: na ponta do lápis, entre o que entra e o que sai, a atividade de Uber não compensa.


-- Se eu achasse outro emprego, em fábrica, por exemplo, eu encarava e deixava isso de lado. Mas você tem que tocar a vida, tem que carregar todo mundo.

Todo mundo, para Tonhão, é a família, três filhos e seis netos. De trabalho, afirma, nunca teve medo. Mineiro de Paraisópolis, nascido em uma família com 9 filhos, Tonhão trabalha desde os 11 anos. Foi entregador de jornais no antigo “Agora”, pintor, pedreiro, metalúrgico. Entrou na GM em 1983 e lá, dois anos depois, descobriu a política, na greve de 1985, uma das mais radicais da história do sindicalismo na cidade. Mas jura: nunca se envolveu com política sindical. Mas a experiência como cipeiro garantiu projeção na fábrica. Com ela, entrou no PT em 1986 disputou sua primeira eleição em 2000. Não foi eleito, mas não desistiu. Chegou à Câmara quatro anos mais tarde.

-- Tem saudade da Câmara?
-- A política passou, mas ela ainda está no sangue.

Tonhão conta que é reconhecido por muitos passageiros (“tem gente que fica olhando, olhando, até perguntar: você não era vereador?”) e que tem sido sondado por alguns partidos para disputar as próximas eleições. “Mas não falo de política no carro. Aqui, só escuto, é melhor”, garante.

Política é nitroglicerina pura.

Ele diz ter orgulho do trabalho que fez na Câmara, trabalhando principalmente com os movimentos sociais, durante as duas gestões de Eduardo Cury (PSDB), E defende Carlinhos Almeida (PT). “Ele foi um bom prefeito”, afirma. O azar de Carlinhos, segundo o ex-vereador, foi ter sido pego pela crise que afetou o PT em todo o país. Fiel ao PT, acredita que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não está envolvido nos casos de corrupção ocorridos durante seu governo, mas defende a punição dos culpados pelos desvios investigados pela Lava-Jato.

-- Quem tem culpa tem que pagar pelo que fez.
-- E Lula, Tonhão, tem culpa?
-- Não acredito. Conheço o Lula há muito tempo, desde quando dona Marisa vendia coxinha para ajudar nas despesas do partido.

A corrida deu R$ 6,50, valor mínimo para uma viagem curta dentro da cidade em São José dos Campos. A pergunta final é óbvia: “A política não deixou você bem de vida, Tonhão?”. A resposta também óbvia: “Não”. Menino pobre que veio a pé com a família de Dourados (MS) a São José dos Campos no final dos anos 60, para morar na casa do avô, tem orgulho do filho na Faculdade de Direito, mas ele mesmo não terminou o curso. Sua esperança é encontrar outro emprego, de preferência com carteira assinada.

-- Não vou parar. Se a gente parar, morre ...

PS: Como vereador, Tonhão Dutra foi um parlamentar mediano. É lembrado por freqüentar a Casa algumas vezes com uniforme da laranja de agente ambiental da Urbam, quando a pauta tinha algum projeto ou debate relativo ao funcionalismo municipal. Foi voto solitário contra o aumento do subsídio dos vereadores em 2005, em sua primeiro ato como vereador, logo após a posse. A repercussão de seu voto obrigou a Casa a revogar o aumento. Votava algumas vezes contra a bancada do PT.
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Um comentário:

  1. Consulte seus alfarrábios, Hélcio, mas nesta votação de 2005 todos vereadores do PT votaram unidos

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