Nas asas de um sonho


por Guilhermo Codazzi da Costa

Dobra aqui, redobra de lá e o papel, pouco a pouco, ganhava os contornos de uma aeronave, construída por dois meninos de um metro de altura que tinham a cabeça lá no alto, por entre as nuvens do céu. Meu irmão Julio e eu, com 6 ou 7 anos aquela época, tínhamos alma de pipa e coração de avião. 
Para a infelicidade do Seu Zé Maria, porteiro do prédio, passávamos a tarde toda brincando de ser Santos Dumont, lançando da janela da sala nossos caças de papel.

Mas para onde?

Entre uma aterrissagem forçada e outra, sempre intercaladas por quedas abruptas de bico em direção ao chão, um avião conseguia ultrapassar os muros da faculdade de Medicina da Unitau (Universidade de Taubaté), nossa vizinha, e seguia dançando ao sabor do vento, planando, levemente suspenso no ar. Mas, afinal, por que fazíamos aqueles caças de papel? Para voar?

Não, era para chegar mais longe. Ganhava o que conseguia ir além, conjugando metro a metro o alado verbo sonhar.

Esta centelha, que se mantém acesa no coração dos homens, é a mola propulsora do motor da história humana. Foi ela que fez, por exemplo, Cristóvão Colombo lançar-se ao mar com as suas esquadras rumo ao oceano desconhecido, contrariando o senso comum de que a Terra era plana como uma folha de papel sulfite, como as que transformavámos em aviões.

Os exemplos na história são os mais variados. Em São José, por exemplo, um grupo engenheiros decidiu fabricar aviões no Brasil nos anos 1960, contrariando todas as possibilidades.

Em 1969 nascia a Embraer, um sonho que virou realidade concreta, materializando-se em umdos maiores nomes da indústria aeronáutica mundial, principalmente após a privatização ocorrida em 1994. Agora, em 2017, a companhia se prepara para seu terceiro ciclo de mudança.

"O Vale" apurou que a meta é unir forças com a Boeing, para alçar voos ainda mais altos, no competitivo mercado global.

A negociação entre Embraer e Boeing é vista por Ozires Silva, fundador da companhia joseense, como um passo adiante. Que assim seja, desde que o controle siga brasileiro. Afinal, é sempre preciso ir mais longe, mas sem se esquecer de que deixamos as nossas raízes no chão.

Guilhermo Codazzi da Costa é editor-chefe do jornal "O Vale".
Este artigo foi publicado originalmente neste veículo, em sua edição do último final de semana

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