A dimensão humana



O livro é quase um tijolo baiano e faz parte da minha pré-história, quando, anos atrás, cursei Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Paraná.

Mas está lá ...

Publicado pela primeira vez em 1936, "A Arte de Projetar em Arquitetura", de Ernest Neufert, coloca um padrão que, mais tarde, procurei aplicar em todos os meus projetos, trabalhos e sonhos: o ser humano é a unidade ideal de medida. Claro, nas últimas décadas, principalmente no planejamento urbano tradicional, isso parece ter ido para o espaço (essa é uma discussão longa, que vale outro artigo). Mas trata-se de uma verdade para mim irrefutável: sem a dimensão humana, perde-se o sentido das coisas. Neufert, que fez companhia a gerações gerações de estudantes de Arquitetura pelo mundo a fora, sabia o caminho das pedras.

Penso nisso ao observar o crise política que assola o país ...

Ela nos colocou em duas situações incômodas: de um lado, favoreceu o fortalecimento de espectros políticos radiciais, dos quais Jair Bolsonaro (PSL) é um dos mais sólidos representantes, embora não o único; de outro, criou um vácuo de representatividade, um cipoal que deixou sem chão as lideranças e os partidos políticos tradicionais, as instituições e boa parte da estrutura que mantém o Estado em funcionamento. Quem representa quem? Nessa selva ideológica, não deixa de ser estranho o documento encabeçado pelo PSDB para tentar sensibilizar os presidenciáveis de centro a se unirem para fazer frente a Bolsonaro, Ciro Gomes (PDT) e quem possa surgir das ruínas do PT nas urnas de outubro. Garrafa lançada ao mar por náufragos? É o que parece. Mas, enfim, o que mais resta fazer?

A crise tem sua origem na perda de dimensão humana pela política.


Sem o foco na pessoa, a política passou a servir apenas para manter as super-estruturas. Isso vale para a União, para os Estados, para as cidades. Esse embate travado em torno do poder, sem o referencial humano, torna inimigos os desiguais. Em uma análise feita tempos atrás para a revista "Carta Capital", o economista Luiz Gonzaga enxerga a onda obtusa que se abate sobre o país (e os Estados Unidos, da era Donald Trump) pela ótica da obra "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt. “Se você não é igual a mim, não tem direito a existir”, sintetiza Belluzo no artigo, apontando uma espécie de igualitarismo de manada, que, segundo ele, termina por tentar eliminar pela força as diferenças de posição social e de estilos de vida. Isso ocorre, principalmente, pela perda da dimensão humana, por termos deixado de olhar o outro como igual, semelhante.

É a versão radical do fim das ideologias.

Para citar um cara da moda, Zygmunt Bauman, com o fim das utopias no final do século 20 acabamos encurralados em uma sociedade rica, mas sem projetos de longo prazo, fragmentada, sem senso de comunidade, frágil. Uma sociedade incapaz de manter formas, ou melhor, de se solidificar. Essa é a sociedade líquida, conceito-chave de Bauman, em que a dimensão humana se perde frente à dimensão do indivíduo e da noção suprema da felicidade individual. Uma sociedade onde tudo muda rapidamente, nada é feito para durar: direitos, deveres, o amor, a família, as relações pessoais e de trabalho, os compromissos e as promessas. Como resultado disso, somos um, mas, na verdade, não somos nada, pois, isolados, somos frágeis, amorfos, números e estereótipos.


Qual a saída?

Para o Brasil, é simples propor, mas difícil fazer: refundar a República, afastando as soluções radicais (Bolsonaro, intervenção militar, a volta de Luiz Inácio, entre outras), zerando boa parte das lideranças atuais, quase todas perdidas, submersas pela crise. O fim da reeleição para cargos executivos seria um passo, com a possível ampliação  dos mandatos de 4 para 5 anos (uma coisa a se pensar). Uma limitação da reeleição para o Legislativo seria outro. A redução das mordomias e penduricalhos que pagamos aos políticos e detentores de cargos em geral (ministro, desembargadores, juízes e toda essa patota) é um ponto nevrálgico, assim como a eleição de uma Constituinte, para uma revisão geral, uma faxina, na Constituição de 88, já bastante mexida e bastante desfigurada ao longo de décadas. Sem um novo pacto social, firmado pelos brasileiros, feito a partir da dimensão humana da Nação, o Brasil não tem jeito. Complicado é debater isso em um ano tão nervoso quanto 2018. 


Mas, como disse Guimarães Rosa, o sapo não pula por boniteza, pula por precisão.
Tem hora que a história morde os nossos calcanhares e somos todos obrigados a nos mexer. Afinal, como ensina a sabedoria popular, quem fica parado é poste ...
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