Ataliba Leonel, 40


1. A Morte
Minha mãe enfrentou a morte quatro vezes. Em três delas se deu melhor ...

O primeiro duelo foi antes dos 5 anos, quando ela despencou, de costas, da janela do sobrado fazenda sobre o terreiro mais de 3 metros abaixo. Por sorte, entre a Bugrinha e o chão duro dormia uma porca gorda, que acabara de dar à luz. Gorda, Couch –nome dado pela minha mãe-- aparou a queda da menina e evitou que a filha mais velha de Antonio e Durcelina Amorim terminasse seus dias ali, estirada no terreiro de café. Anos mais tarde, na casa dos 20 anos, minha mãe encarou de novo a morte. Tuberculosa, a ela foram dados seis meses de vida, em um tempo antes da penicilina, em que essa doença era sinônimo de morte triste e dolorosa. Passou seis meses deitada, tendo como companhia sua mãe, Durcê, e um rádio de baquelite, que hoje enfeita um móvel da sala de meu apartamento em São José dos Campos. Sobreviveu. E esse exílio em Campos do Jordão mudou sua vida. Curada, anos mais tarde conheceu um jovem médico, Hélcio, que viria a ser seu companheiro por mais de 60 anos. A vida tem seus próprios caminhos: da morte iminente nasceu o amor e, com ele, a família como ela é hoje. Steve Jobs disse uma vez, com razão, que você só consegue ligar os pontos de sua vida olhando para o passado. Assim o é. O terceiro embate com a dita-cuja foi bem mais tarde. Com minha mãe na casa dos 50 anos, os médicos (sempre eles) deram a ela, de novo, seis meses de vida, em razão de complicações cardíacas. Azar dos médicos. Depois disso, ela viveu mais de três décadas e teve seis netos, criados, boa parte, ao seu redor.

Minha mãe só perdeu a aposta contra a morte na madrugada do dia 1a. de novembro de 2015. Tinha 89 anos.

2. O Brilho do Bronze
Esse cenário me vem à cabeça enquanto arrumo os pertences de minha mãe, Maria Nívia, para serem levados à casa em que sempre morou, em espírito, na praça Ataliba Leonel, na terra onde nasceu, em Piraju, e nascemos todos os filhos, elos tecidos na cadeia da vida. Esta é a quarta vez em que mergulho, sozinho, quase sempre, nas memórias, cartas, objetos e fotografias que compuseram, durante décadas, o universo sentimental de meus pais. Cumpri esse ritual logo após a morte da minha Bugrinha (apelido que ganhou na infância, em razão da pele tostada que tinha e que, pelo DNA, herdei com orgulho), em novembro de 2015. Repeti após a morte de meu pai, dois meses e meses e meio depois, em janeiro de 2016. E, mais uma vez, quando passei a morar na casa que era deles, meses mais tarde, em agosto de 2016. Todas essas etapas foram como sentenças dolorosas, de imensa solidão, quase sempre, mas, ao mesmo tempo, inesquecíveis, que me ajudaram a conhecer melhor as pessoas que foram, um dia, meu pai e minha mãe.

Com isso, passei a admirá-las mais. E a amá-las mais.

As cartas de minha mãe, guardadas organizadamente ao longo de décadas, foram uma leitura emocionante. Por elas,conheci Maria Nívia antes dela ser minha mãe, o que viria a ocorrer em uma noite de tempestade em 1959, ainda hoje lembrada em Piraju. Conheci Maria Nívia antes do nascimento de minha irmã, três anos antes. Conheci Maria Nívia antes do casamento com meu pai. Conheci seus anseios, sonhos, medos e dissabores em cartas trocadas com amigos, amigas e parentes. Mais tardia, a correspondência trocada entre meus pais, intensa, traz instantes de puro amor, momentos de confissões apaixonadas, relatos de apreensões de um casal que construiu uma vida juntos por mais de 60 anos. Compreendi-os humanos, demasiadamente humanos.

Vivi momentos intensos, de transbordar o coração.

Sensação idêntica havia tido, tempos antes, ao conviver com meu pai nos seus últimos anos de vida. Nós, que por anos nem nos falamos, estabelecemos uma relação além de pai e filho: construímos, nos últimos anos, uma relação de amizade. Isso me transformou em um confidente inesperado do Doutor, como sempre o chamei, em uma forma de distanciamento respeitoso, até para marcar posição, eu aqui, você lá. Que bobagem, na sua velhice, essa fronteira se dissolveu. Não foram poucas as vezes em que ele chorou ao falar do medo que sentia da morte que se aproximava, inevitável como ela é, e da ausência de minha mãe, morta meses antes.  Não foram poucas as vezes que me surpreendi com detalhes antes omitidos de histórias narradas por ele ao longo da vida, ouvidas por mim dezenas e dezenas de vezes. Detalhes que faziam toda a diferença. “Então foi assim que realmente aconteceu”, pensava eu, em silêncio, olhando suas rugas, seus cabelos brancos, o rosto recém-barbeado. Em uma das últimas conversas que tivemos antes dele passar mal e ser internado, meu pai me confessou que não chorava mais ao lembrar de minha mãe. Afinal, disse, ele tinha sido tão feliz ao longo dos últimos 60 anos, que, a simples lembrança dela enchia seu coração de alegria. Simples, assim ...

3. A Casa Rosa
É assim que eu me sinto.

Não tenho direito nem razão em ser triste. Me preparo para levar os objetos e pertences que ajudaram a compor, ao longo da vida, as marcas visíveis de minha mãe ao longo da vida. Encaro isso como um ritual. Assim como foi ritual conduzir seu corpo ao túmulo da família, em Piraju, em novembro de 2015, onde ela descansa hoje ao lado do tio que a criou, Quincote, e de meu pai. Vou até lá sempre que posso. Sentado à beira do jazigo já chorei muito, me revoltei com a sensação de abandono até chegar ao ponto de sorrir, sereno, como meu pai, grato pelo amor e pela felicidade recebidas ao longo de quase seis décadas. Fui amado, tenho certeza. Amei, amo ainda, sei disso. Ali, todos os fantasmas, se é que eles ali existem, são amigos. Ali, como canta Caetano Veloso, o tempo --senhor tão bonito quando a cara do meu filho-- para por um instante. Não creio que a Bugrinha esteja confinada naquele espaço sob a terra. Mas sua vontade de ser enterrada ali, onde nasceu, ao lado das pessoas que amava, era tão grande que, ali, sentando, cumpro a tarefa de honrar sua memória. Faço isso sozinho, quase sempre. O mesmo se dará em alguns dias, quando os objetos,  cartas e fotografias de meus pais chegarem ao número 40 da praça Ataliba Leonel, a casa da família, erguida em 1901, mais de um século atrás, pintada pela minha mãe de sua cor predileta, rosa. Ali, entre aquelas paredes, eu sei que minha mãe era mais feliz. Agora, tudo dela estará lá. Na casa que ela trazia em seu coração.


(Uma curiosidade: sua última viagem, em vida, a Pirajú foi arranjada por mim. Contra o bom-senso e parte da família, levei-a a Pirajú, mais de 400 quilômetros de distância, em um verão. Foram poucos dias. Mas a idade, o cansaço, as dores que sentia foram esquecidos em algum canto e, no lugar deles, apareceu uma mulher cheia de vida, enfrentando sem pestanejar as escadas do casarão da família, recebendo parentes na sala azul, entretida com as coisas que tanto amou. Foi à Igreja, à casa dos irmãos, ao cemitério. Voltou para casa, em Taubaté, com um sorriso de face) 

Minha mãe está voltando em definitivo para casa onde, em espírito, sempre morou. Simples assim. Apesar do choro e do ranger de dentes, todo o resto, que virá, é silêncio.


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5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Muito mais que um conteúdo jornalístico, uma crônica, a história de uma vida. Linda homenagem. Um texto delicioso de ler. Parabéns, Hélcio!

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  3. Parabéns Helcio! É Realmente uma história linda de vida. É uma saudade gostosa! Mas nunca é tarde para uma bela reflexão de vida revendo a história. abraço

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    1. que bom que gostou, Cecília. beijo, carinho e saudade

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