Três palavas mágicas


por Marcos Meirelles


Qual é o maior problema do país hoje? Violência? Desemprego? Corrupção?
Não importa a escala ou a ordem de preferência. Essas três palavrinhas trágicas formam o amálgama da crise que dissemina desesperança pelo país.
Uma desesperança que deságua nas redes sociais e contamina todo o sistema de representação política, como se a democracia fosse a culpada pelas mazelas brasileiras. Esse pensamento torto e totalmente equivocado atravessa todas as classes sociais e sobretudo os endinheirados que viajam periodicamente para Miami e se deslumbram com as conquistas de mais de 200 anos de democracia nos Estados Unidos.
Diante do desinteresse absoluto dos eleitores em torno das eleições vindouras, teme-se um abstenção recorde nas urnas em outubro e pela própria legitimidade do processo.
Das três palavrinhas trágicas, no entanto, duas estão relacionadas à nossa própria história e conformação cultural.
Antes de tudo, é forçoso admitir: somos, sim, um povo violento. Nossas habilidades socioemocionais jamais foram trabalhadas nas escolas e raramente pelas famílias. Nas situações de conflito, apelamos, com frequência, à violência.
Mesmo subnotificadas, as lesões corporais dolosas e as ameaças estão entre as principais ocorrências policiais. Então, é impossível subestimar o impacto desta cultura desta cultura de violência sobre os nossos jovens, especialmente aqueles que crescem em famílias desestruturadas e em territórios vulneráveis, como aqueles dominados pelas facções criminosas.
Somos também uma nação corrupta e com a corrupção (o famoso jeitinho) enraizada historicamente em nossas práticas cotidianas. E aqui não estamos tratando apenas do ambiente político. Gosto muito de citar, neste aspecto, os “gatos” de energia elétrica, internet e TV a cabo, praticados, sem o menor pudor, por brasileiros de A a E.
Não nos iludamos, portanto, com as promessas dos políticos que prometem extirpar a corrupção. Podemos buscar iniciativas e boas práticas que ajudam a mitigar este problema no âmbito do Poder Público e devemos combater, incessantemente, a impunidade. Mas a vassourinha mágica não existe.
E o desemprego? E o desespero de milhares brasileiros que hoje não conseguem nem mesmo um bico para se alimentar ou alimentar sua família?
Em Niterói, onde estive há pouco tempo, mais de 4.000 trabalhadores perderam seus empregos nos estaleiros navais que fecharam. Ouvi do presidente do Sindicato dos Metalúrgicos dois relatos que me impressionaram.
Um ex-metalúrgico sobreviveu dois anos vendendo linguiça e queijo na entrada do estaleiro onde trabalhava. O estaleiro fechou e ele foi para o centro da cidade, mas não conseguiu pagar a propina exigida pela polícia para permanecer no local.   Suicidou-se aos 45 anos.
Quatro ex-metalúrgicos procuraram o sindicalista para tratar de processos de indenização. Chegaram na sua casa empunhando armas e ele pensou, por um momento, que era um assalto. E eles pediram desculpas, explicando que a única alternativa que encontraram foi trabalhar para o tráfico.
Violência, corrupção e desemprego se encontram nestas histórias. E tenho certeza que em muitas outras pelo país.
Nossos candidatos estão pensando sobre isso? Qual é a melhor proposta para prevenir a violência, gerar empregos e implementar boas práticas na gestão pública?
Marcos Meirelles é jornalista.
Este artigo foi publicado originalmente na edição deste final de semana do jornal "O Vale"
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