O futuro da Embraer



por Marcos Meirelles

Causa espanto a passividade das lideranças e da própria população joseense diante da sacramentada fusão entre Embraer e Boeing na aviação comercial.
Segundo os relatos que recebi, houve até comemoração entre alguns funcionários da empresa, convictos de que não havia alternativa para enfrentar a concorrência formada pela associação entre Airbus e Bombardier e pela ameaça crescente dos fabricantes chineses e japoneses.
Que tratemos como fusão o processo em questão já me parece uma interpretação edulcorada das vontades do mercado. A nova empresa nasce com a aquisição da fatia majoritária do negócio pela Boeing, ao custo de US$ 3,8 bilhões. Na composição acionária, os norte-americanos ficam com 80% da nova empresa e a Embraer, com 20%. Fusão?
Admitamos, no entanto, que as novas condições impostas pelo mercado tenham colocado a Embraer em uma sinuca de bico. Neste cenário, os executivos da empresa buscaram, sem dúvida, a parceria mais viável, garantindo, através de um quase duopólio, a competitividade exigida pelo segmento da aviação comercial. De lambuja, receberam a promessa de uma parceria estratégica para a ampliação das vendas do segmento de defesa, que, por ora, permanece com o controle acionário original.
Isto posto, não há a menor dúvida de que a fusão deve promover alterações substanciais no processo produtivo da aviação comercial. A estimativa é de uma sinergia anual de custos estimada em US$ 150 milhões, sem considerar impostos, até o terceiro ano.
Esta palavrinha mágica, “sinergia”, representa a essência das transformações que ocorrerão no processo produtivo e que podem, sim, afetar o emprego, a geração de renda e a pesquisa tecnológica nos parques fabris incorporados à nova empresa. Reduzir custos significa otimizar produção e aumentar a produtividade, onde quer que isto seja mais interessante para os acionistas majoritários da nova empresa. Some-se a isso pressão do governo Trump para que as empresas americanas invistam em seu próprio país e temos aí a possibilidade de uma tempestade perfeita.
Já existem muitos funcionários brasileiros da Embraer nos Estados Unidos e o capital humano qualificado não será certamente desperdiçado pela nova empresa. Para alguns, pode ser até como ganhar na loteria, mudar-se para Flórida com a família toda, garantir educação de qualidade para os filhos e uma vida tranquila, em um país desenvolvido e seguro.
Para os que ficarem em São José, no entanto, o cenário pode não ser tão feliz.
Se a cidade tivesse um parque industrial diversificado, com avanços tecnológicos em diversos setores e alternativas de geração de renda consistentes, esta discussão talvez nem faria sentido. Mas, em um processo que se acentuou nos últimos dez anos, São José é hoje excessivamente dependente da Embraer. Ainda que restem outras grandes empresas instaladas na cidade, mas com empregos à míngua e futuro ainda mais incerto (citemos, por exemplo, o caso da GM).
Com a indústria definhando, São José estaria vocacionada para gerar riqueza alavancada apenas pelo setor de serviços? A crise que ceifou milhares de empregos na construção civil e no comércio indica que este é um caminho arriscado.
Dessa forma, a Embraer e a nova empresa criada pela fusão com a Boeing estão no centro do debate sobre o futuro da região. O governo Temer, obviamente, não fará nenhuma objeção às futuras sinergias, como não o fez em relação à fusão.  
E você, morador de São José, já parou para refletir sobre isso?

Marcos Meirelles é jornalista.
Este artigo foi publicado originalmente no jornal "O Vale"
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