Vida longa a "seu" Raposo

"Seu"Raposo

O bilhete misterioso, escrito a lápis, dizia: seu Raposo vai more ...

Aos 5 anos, o "erre" dobrado em morrer era, para mim, um desafio. Por isso, o bilhete, escrito em tom ameaçador, rendeu no rosto do meu pai um sorriso, que, aos poucos, estourou em uma risada. Havíamos brigado por algum motivo que, há muito, já se perdeu no tempo, e eu, magoado, resolvi externar minha braveza naquele bilhete, inspirado, isso eu lembro bem, em um episódio do Zorro, na TV. Um bilhete misterioso, pensei, quem poderia descobrir o autor? No Zorro, pobre Sargento Garcia, ninguém suspeitava de Dom Diego de La Vega. Porque suspeitariam logo de mim? Claro, o fato da letra ser minha era, para mim, irrelevante. Assim como era irrelevante, na minha imaginação, o fato de eu ser a única pessoa naquela casa que chamava meu pai de "seu Raposo", inspirado em uma gravura de um livro de Pinóquio, quando brigava com ele. Rindo, meu pai mostrou o bilhete para a minha mãe e ela disse, baixinho: "Acho que tem alguém bravo com você." Meu pai me colocou sentado em suas pernas e começou a conversar comigo sobre muitas coisas, sem falar do bilhete, nem do motivo da briga, que, confesso, não consigo me lembrar. Depois fomos almoçar, a briga se evaporou no cotidiano da família e o bilhete ameaçador acabou guardado pela minha mãe por anos e anos.

Eu e meu pai brigamos muito pela vida a fora. Brigamos por política, por futebol, por problemas de família. Éramos muito diferentes, iguais em uma coisa: éramos duas pessoas de opinião muito forte, que defendiam suas ideias, valores e pontos de vista com muita determinação. Deve estar no DNA da família.

Quando meus pais morreram, anos atrás, mexendo nos guardados de minha mãe, achei, dentro de um livro, o bilhete misterioso. Estava lá, com todas, ou quase todas as letras, a ameaça do passado: "seu Raposo vai more". Na minha face se escreveu um sorriso, que explodiu, segundo depois, em uma gargalhada. A peraltice do menino de 5 anos tinha sido congelada em alguma dobra do tempo. Mais que uma ameaça, tinha sido uma previsão, uma espécie de profecia inevitável: seu Raposo iria, sim, um dia, morrer. 

E esse dia, triste, inevitável, já havia, infelizmente, chegado ao calendário de nossas vidas.

Eu e meu pai, ou, melhor, Zorro e seu Raposo, brigamos muito, fizemos as pazes muitas vezes, rimos muito disso tudo muitas vezes, tantas quanto trocamos segredos, confidências, conselhos. Esse é ciclo da vida. Ele esteve ao meu lado nos bons e nos maus momentos, nos altos e baixos, e nos momentos de extrema alegria, como o nascimento dos meus filhos, seus netos. Eu estive ao seu lado até a véspera da sua morte, gargalhando na UTI lotada, com a enfermeira-chefe nos chamando a atenção, quando os médicos prometiam sua alta para o dia seguinte. Esse dia seguinte não veio. Em seu lugar, veio a dor. Mas, compreendo e aceito, esse é o ciclo da vida. Vendo pela perspectiva dos anos, fomos, mais que pai e filho, bons amigos, daqueles que se carrega pela vida a fora. Não há um dia sequer que não me lembre dele, com carinho, saudade, amizade, amor. Para mim, seu Raposo, com quem um dia briguei não sei mais por que motivo, está sempre presente. Está em mim, no meu DNA, nas minhas memórias, nos gestos, na alma, como se o tempo, infinito, corresse todo em um momento só, um grande e imenso agora, unindo passado, presente e futuro, cores, gestos, sensações, naquilo que somos de fato, frutos daqueles que nos criaram, daqueles a quem amamos e foram importantes em nossa vida. Somos, enfim, a soma de muitos, mas, de alguns poucos, de uma forma única, especial.

Neste Dia dos Pais é triste, mas necessário admitir: seu Raposo morreu. 
Na grafia do menino de 5 anos, moreu. Que saudade ...










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