A cegueira das urnas

por Marcos Meirelles
“Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem” 
Assim Saramago encerra seu "Ensaio sobre a Cegueira", quando as vítimas da cegueira branca, subitamente recuperados, questionam-se sobre as razões da catastrófica epidemia.
Estamos cegos.
Ou somos cegos, que vendo, não vemos. E marchamos tomados pela insensatez.
Vamos às urnas no próximo dia 7 de outubro contaminados por uma nova epidemia de cegueira, os olhos encobertos e crispados pelo ódio, os corações enrijecidos.
Admiro a coragem de todas as mulheres que enfrentam a fúria das redes sociais e reiteram: “Ele Não!”. Mas é demasiado assustador e frustrante constatar que o ódio tornou-se semente revigorada, depois de ter sido cultivado e colhido, durante muito tempo, nos nossos quintais.
Já tivemos na história do Brasil outros personagens tão nefastos como Bolsonaro, dois deles militares como ele: Floriano Peixoto e Hermes da Fonseca.
O primeiro ajudou Deodoro a dar o golpe que derrubou a Monarquia e depois se tornou, ele próprio, um ditador à moda tupiniquim, deportando os adversários para o Acre (nossa Sibéria de então), assassinando opositores e estabelecendo as bases da oligarquia da República Velha, que manteve o Brasil preso ao século 19 até a década de 1930.
O segundo era sobrinho e cria de Deodoro e venceu uma eleição escandalosamente fraudulenta contra Rui Barbosa. Governou sob estado de sítio, interveio nos Estados adversários, bombardeou os portos brasileiros e fez a inflação disparar, com nova moratória da dívida externa. Foi tutelado, do primeiro ao último dia de governo, pelo senador Pinheiro Machado, uma espécie de José Sarney da época.
Esses presidentes que se transformaram em símbolos do atraso econômico e político do Brasil estão na origem de todas as demais guinadas autoritárias da nossa história.  É a esta gente que a campanha de Bolsonaro rende a sua homenagem mais secreta –a certeza de que uma boa parte dos brasileiros se deixa seduzir pela imagem de salvadores da Pátria, muitos deles fantasiados com fardas.
O Brasil e os brasileiros merecem sorte melhor. #Ele não!

Marcos Meirelles é jornalista.
Este artigo foi publicado originalmente na edição deste fim-de-semana do jornal "O Vale"

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