O nome que está na placa




Tempos atrás, estava com as mortes de Ricardo Boechat e de Deborah Costa ainda na cabeça quando me veio a lembrança outro fato, ocorrido no final do ano passado, que teve uma repercussão modesta: a homenagem da Câmara de São José dos Campos ao jornalista Dailor Varela, que emprestou seu nome aos estúdios da TV Câmara.

É um fato a ser destacado.

Morto em 2012 aos 67 anos, Dailor faz parte da história do jornalismo regional. Nascido em Goiás, virou potiguar por tradição familiar e valeparaibano pela força da alma. Autor de 16 livros, Dailor trabalhou na "Veja" e na "Folha de S. Paulo" nos anos 70, vindo depois para São José dos Campos, onde atuou principalmente nos jornais "Agora" e no antigo "ValeParaibano". Deste, foi editor-chefe. Como poeta, brilhou: sua obra poética está no livro "100 Maiores Poetas Brasileiros do Século", de José Nêumanne Pinto, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meirelles e outras feras. Como jornalista, ajudou a região a valorizar a sua própria cultura, suas raízes mais profundas, sua arte mais popular, as pequenas cidades. 

Por isso, volto a dizer, justa a homenagem ocorrida em dezembro, por obra e feito da vereadora Dulce Rita (PSDB).

Ela tem, no entanto, um significado que vai além da obra e da personagem de Dailor, poeta, jornalista e escritor, cujo corpo está enterrado na sua bucólica Monteiro Lobato. É significativo ver a Câmara prestar homenagens a um jornalista, principalmente nesses tempos tão bicudos para a categoria. Faz bem para a classe, valoriza a profissão e enaltece a liberdade de expressão em um momento em que ela parece, às vezes, tão frágil, e a vida, às vezes, tão vulnerável. Mas tomara que não sejamos lembrados como pessoa ou como categoria apenas em homenagens isoladas, lembrança de alguém mais atento, um ato esporádico, um instante de comoção ou espanto (como no caso da demissão da jornalista Michele Sampaio). Para ficar apenas no nosso quintal, a região tem personalidades importantes em sua imprensa que não podem ou não merecem ser esquecidas. Todas elas, sem exceção, ajudaram, de uma forma ou de outra, a forjar a identidade do Vale do Paraíba, expondo nossas mazelas, evidenciando nossas riquezas, debatendo nosso presente e futuro. 

E agora?


Chico Triste já tem seu espaço, Flávio Craveiro também, mas uma andorinha ou duas andorinhas só não fazem verão. Bons nomes não faltam e eu vou arriscar aqui apenas alguns, sob risco, sempre claro, de deixar outros de fora. Alguns já subiram para o andar de cima e devem estar se divertindo na Redação Celeste (que ganhou reforços recentes e deve estar preparando, com certeza, alguma edição extra), outros estão por aí, na labuta. Cito, pedindo desculpa a quem ficar de fora, Antonio Augusto de Oliveira, o Guga, Luiz Grunewald (um mestre, que me ensinou a arte de fazer um bom título, da qual fui apenas um aluno esforçado), Bouéri Neto, Ênio Puccini, Stipp Júnior, todos esses já em outro plano; Flávio Néry, meu amigo e mestre maior, que está por aí, a quem mando um forte abraço e peço bênção, Fabíola de Oliveira, Roberto Wagner de Almeida, Nelson Homem de Mello, Eustáquio de Freitas, Marcos Meirelles, sempre bem informado, Sheila Faria, Terezinha Almeida, Cláudio Nicolini, Wagner Matheus (um dos meus primeiros chefes, na época sempre de gravata), Nydia Natali, Luiz Paulo Costa, enfim, um escrete de respeito. E incompleto, pois devo ter esquecido um montão de pessoas (e, por isso, peço, de novo, desculpas antecipadas). E, olha, nem entro na seara do Rádio, que, por si só, merece uma enciclopédia à parte. Mas os radialistas cultuam a sua memória. 

Não trato aqui de homenagens, placas, diplomas. 

Trato de valorizar gente que fez e faz jornalismo na região, um trabalho árduo de garimpagem de informação, debate de idéias, formação de pessoas e cultura. É uma pena, mas não temos, hoje, um evento que reúna a imprensa regional, um prêmio que valorize seu trabalho, uma simples menção coletiva, um aceno de simpatia. A última ação com começo, meio e fim que me lembro foi o prêmio "Lettering", criado pela jornalista Letícia Maria, que tinha diversas categorias destinadas ao jornalismo. Nada mais depois disso, o que é triste. E daí? Uns passarão, outros, passarinho, como ensinou Mário Quintana. Quem sabe isso muda uma hora. Quem sabe não muda nunca. Fazer o quê?

Parabéns à família de Dailor, em especial a sua filha Maíra, sobre quem ele falava sempre e sempre com muito amor; saudade dos que já partiram desta para melhor, como diz aquele jargão velho, roto e gasto pelo tempo de uso.

Como sempre digo, segue o baile ...

PS: antes que algum matuto metido a esperto entenda o texto aí de cima de forma enviesada, como um pedido velado de homenagem, vá tirando o cavalinho da chuva. Não sou chegado a essas coisas, sou avesso a rapapés. E, além do mais, sou aprendiz de feiticeiro e, nessa história toda, não sirvo nem de nota de rodapé.  A benção, mestre Luizinho, craque dos títulos difíceis, do 3 de 11, que me ensinou a titular pelo ritmo, não pelo simples contar dos toques. A benção, mestre Flávio, que um dia descobriu, em mim um jornalista, 40 anos atrás.



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