De olho no fiofó alheio



O patamar do debate no Brasil regrediu tanto que o país, com mais de 500 anos de história e de cultura, voltou à fase anal.
Não é exagero.
Do presidente Jair Bolsonaro (que colocou a golden shower na agenda da República) ao seu guru bobalhão, Olavo de Carvalho, passando por diversos outros personagens de diversas esferas, a fixação primária em sexo & afins tem sido constante no discurso, nas ideias e nos debates. Olavo, por exemplo, adora mandar seu interlocutor “tomar caju” e tem naquela palavra pequenininha, de duas letras, uma arma que considera eficaz para neutralizar críticas e críticos. Pois é, lá da Virgínia, ele adora tomar conta do fiofó alheio, o que evidencia sua fixação na fase anal, o segundo estágio da teoria do desenvolvimento psicossexual de Sigmund Freud, com duração dos 18 meses aos 3 anos de idade, quando a criança descobre o xixi e o cocô, e, principalmente, como controlá-los. Com 72 anos recém-completados, Olavo avançou um pouco a idade prevista por Freud, mas problema dele. Vai lá saber a causa. Talvez nem Freud explique ...
Pelas bandas de cá, a polêmica deu as caras esta semana em torno do livro “Beirage”, do poeta George Furlan, que atraiu a ira de grupos conservadores pelo uso de palavrões e críticas a Bolsonaro e boa parte da “lista telefônica” da política e das instituições. O cerne da polêmica não é a obra em si, mas o dinheiro usado para sua publicação: “Beirage” custou R$ 20 mil, bancados com recursos públicos, liberados pelo Fundo Municipal de Cultura de São José dos Campos, ligado à Fundação Cultural Cassiano Ricardo.

Muita gente esbravejou: do MBL à deputada estadual Letícia Aguiar, passando pelos vereadores Renata Paiva (PSD) e Sérgio Camargo (PSDB).
É caso de perguntar: qual o critério básico da publicação de uma obra literária? Em tese, pura e simplesmente a qualidade. Nesse ponto peço desculpas a Furlan: não li “Beirage”, só os versos polêmicos divulgados pela mídia. Culpa da pressa e das minhas limitações. Mas quando vejo palavrões causarem alarde, ainda mais na poesia, me lembro de um livro em especial: “O Amor Natural”, que alguns (eu não) consideram pornográfico, lançado em 1992, anos após a morte de seu autor --Carlos Drummond de Andrade. Nele, vulvas, falos, língua, lambidas e bundas criam uma obra linda, profunda, de alto teor erótico. Lembro também do “Dicionário de Palavrões e Termos Afins”, pérola do folclorista Mário Souto Maior, que percorreu o país atrás da origem de termos considerados, digamos, impróprios. Traz mais de 3.000 verbetes (prova que brasileiro adora palavrão) e um ranking dos escritores que mais palavrões incluíam em suas obras, vencido, fácil, por Jorge Amado, em especial graças a “Tocaia Grande” (um de meus livros prediletos, ao lado de "Tereza Batista", na constelação de títulos do escritor baiano).

Mas, verdade seja dita, nem Drummond, nem Jorge Amado tiveram,  nessas obras. o amparo e a benesse de verbas públicas.
Que fio de corte vamos adotar? No caso do Fundo é óbvio: redobrar atenção para, ao menos, se antecipar às críticas e não ser pego de calças curtas, como desta vez. Em nota, a Fundação Cultural admitiu que desconhecia o inteiro teor do livro de George Furlan. Ué, mas alguém que ordenou a despesa (talvez o Conselho Gestor do Fundo Municipal de Cultura, por exemplo) deveria conhecer, uma vez que a obra foi brindada com recursos públicos. Nesse ponto, um alerta: muito cuidado com a caneta vermelha da censura, afinal não é função pública editar e reeditar obras seguindo o padrão sem riscos da cartilha "Caminho Suave". Mas é preciso bom-senso, até para transgredir. Bancar a publicação de algo sem ler é temerário. Deu no que deu. Mas, e quando se trata de política? É diferente?  Como deputado, com salário pago pelo contribuinte (e um bom salário, diga-se de passagem), Bolsonaro mandava, aos gritos, dentro do prédio do Congresso Nacional, seus interlocutores fazerem a mesma coisa que Furlan o mandou fazer agora, em verso. Bolsonaro tinha licença para mandar o outro "tomar caju" pelo simples fato de ter imunidade parlamentar? É para isso que serve essa tal imunidade? Sei lá, para mim é um caso, pura e simples, de falta de educação, talvez falta de ideias, ou de ambos.

Pelo sim, pelo não, está na hora da gente parar de cuidar do fiofó alheio e levar o debate, o político, claro, para outras esferas.

PS - Para tirar qualquer eventual sisudez desse texto, me despeço com um trecho de um poema de Carlos Drummond de Andrade pouco conhecido, mas que tem tudo a ver com esse blá-blá-blá todo: "
A bunda, que engraçada, está sempre sorrindo, nunca é trágicaNão lhe importa o que vai pela frente do corpo. A bunda basta-se." É isso aí. Segue o baile ...

Antes que eu me esqueça, esse artigo foi publicado originalmente na edição deste final de semana do jornal "O Vale"

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