O filho da tempestade


Eu e Dona Nívia, após a chuva

Nasci em uma noite de tempestade ...

A chuva foi tão forte que, mesmo hoje, décadas depois, muita gente ainda se lembra dela na cidade. Choveu granizo. Muito. Nas casas e lojas, as paredes voltadas para o oeste ficaram esburacadas pela força do gelo. A fachada de vidro da Santa Casa acabou destruída. Minha mãe, Maria Nívia, ao chegar para dar à luz, teve que ser carregada no colo para não se ferir nos cacos. Com a tempestade, faltou luz na cidade e não havia gerador na Santa Casa. A sala de parto foi iluminada com a lâmpada trazida do sacrário por uma freira. Horas antes, minha mãe havia retirado, com rodo e panos de chão, a água da chuva que invadira a casa onde a família morava. Esse esforço, mais um jantar cujo cardápio foi tutu de feijão, carne de porco e uma taça de vinho (herança da família portuguesa), com certeza, anteciparam as contrações. Essa mistura também fez com que a anestesia não tivesse efeito. Minha mãe deu à luz consciente, sentindo todas as dores. Anos depois, ela me contou, rindo, que não sabia quem fez mais barulho, eu, chorando, ao nascer, ou ela, gritando, ao dar à luz. Dona Ana, no quarto ao lado, soube, pelo choro forte, que havia ganhado mais um bisneto. Minha mãe conta que, exausta, disse, ao me ver: meu filho querido. Essa frase, curta, sempre dita em voz baixa, sussurrada, foi repetida por ela para mim ao longo de toda a minha vida. Mas isso já é outra história. A chuva, o granizo, o vinho, a lâmpada do sacrário, os gritos, os sussurros, tudo isso aconteceu em poucas horas naquela noite julho de 1959, na cidade onde nasci, Piraju, na Alta Sorocabana, interior do Estado de São Paulo. 

Por isso, meus pais e meus tios sempre disseram, brincando: você é o filho da tempestade. 

Talvez venha daí meu gênio. Será? 
Mais meia hora e eu teria nascido no dia 6. Mas não. Quis o destino que eu nascesse no dia 5. E assim foi. Dia 5 de um mês que sempre foi marcado por reviravoltas e revoluções.

Mas porque tudo isso? Quem fez as contas rápido, sabe: completei 60 anos no último dia 5, sexta-feira. Minha mulher ficou feliz: brincando, ela diz que vamos poder estacionar o carro na vaga do idoso. Para mim, é um assombro. Onde estive nos últimos 60 anos que não vi a vida passar? Agora falando sério, escrevi acima linhas e linhas de memórias, mas, confesso, com a mais pura honestidade: o passado só me serve de base para viver o presente e pensar o futuro. Ele não é, já foi. Me pego hoje, como sempre, cheio de ideias e projetos, alguns em andamento, outros em fase de planejamento, na vida pessoal e na vida profissional. Viagens, trabalho, almoços com a família.  Observando meu pai, Hélcio, ao longo de décadas, aprendi que o importante é viver para frente. 

Eu sei: a vida sempre me deu mais do que eu merecia. Filhos queridos, família, amores, trabalho e conquistas. Por isso, tenho, por obrigação, que devolver a ela em dobro. Não sei se consigo. Mas eu tento.


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