Barbárie e Civilização

Óleo nas praias: obra do Greenpeace?


por Marcos Meirelles

No início da década de 70, Candeia reuniu Clara Nunes e Clementina de Jesus em um partido alto em homenagem à notável sambista de Valença (RJ), que ficou conhecido como “Não vadeia Clementina”

“Cadê o cantar dos passarinhos, o ar puro não encontro mais; E o preço do progresso paga com a poluição; O homem é civilizado, a sociedade é que faz sua imagem; Mas tem muito diplomado que é pior do que selvagem.”

E mais: “Energia nuclear, o homem subiu à Lua, é o que se ouve falar; Mas a fome continua; E o progresso, tia Clementina; Trouxe tanta confusão; Um litro de gasolina por 100 gramas de feijão.”

Na época da Ditadura, a homenagem de Candeia a Clementina ecoava como um alerta para a desastrosa marcha da “ordem e progresso”, a mesma marcha insana agora ressuscitada pela família Bolsonaro.

Apenas na área ambiental, o retrospecto de dez meses é dramático. Brumadinho, recorde de agrotóxicos, Amazônia em chamas e, agora, como cereja do bolo, a mancha de óleo que se espalha pelo Nordeste, diante de um governo inerte, omisso e incapaz. Diversos crimes de responsabilidade se acumulam e os Bolsonaros usam os desastres ambientais para promover uma guerra ideológica sustentada por fake news: Bozo, Carluxo e Cia. atribuem o óleo derramado ao Greenpeace. Ou seja: crime que se sobrepõe a crimes.

O resumo do hospício poderia ser a charge de Benett na "Folha de S. Paulo": em visita ao Japão, Jair Bolsonaro alerta os anfitriões que Nagasaki e Hiroshima foram obra do Foro de S. Paulo. 

O que é barbárie, o que é civilização? Será civilizado liberar a exploração de minérios em 33 reservas indígenas, o próximo passo de Bolsonaro?

O que nos resta, hoje, são os marcos fixados pela Constituição, que, minimamente, funcionam como freio para as inspirações autoritárias dos defensores da “ordem e progresso” acima de tudo e de todos. Mas, para fazer referência à ministra Rosa Weber e ao poeta grego Konstantinos Kaváfis, vamos ficar à espera dos bárbaros ou fazer com que os valores da Constituição sejam respeitados?


Marcos Meirelles é jornalista. Este artigo foi publicado originalmente no jornal "O Vale"






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