O dogma da ignorância



Durou pouco, mas durou o suficiente ...

Em menos de 24 horas se fez pó o index de livros proibidos decretado pela Secretaria de Educação de Rondônia, que previa a retirada de 43 obras literárias das bibliotecas públicas do Estado. Tempo suficiente para provar duas coisas. Primeira, que a burrice não tem limite. Segundo, que ataques à cultura e à liberdade de expressão tendem a se desmanchar no ar quando expostos a luz, ao crivo da sociedade. Vampiros, destruídos pela luz na manhã.

Temos que aprender com episódios como esse, aprender a sermos vigilantes de nossos valores e de nossa cultura.

Pois é: banir das bibliotecas públicas obras de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade, Nelson Rodrigues, Carlos Heitor Cony, Rubem Fonseca, Ferreira Gullar, entre outros, sem falar em autores como Franz Kafka (com “ká”, por favor) e Edgar Allan Poe, é atacar a nossa própria identidade, seja como brasileiros, seja como pessoas. Banir “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, obra máxima do maior escritor brasileiro, é de uma estupidez tão grande que parece até “fake news”, para usar uma expressão tão em moda. Não era “fake”.  Algum gênio empoderado em algum cargo público lá em Rondônia achou que seria uma boa ideia. Ora, vamos banir Machado, banir “Macunaíma”, banir “Poemas Escolhidos”, banir “O Castelo”, simples assim, para afastar obras consideradas tóxicas de crianças e adolescentes. Gullar? Um comunista, com certeza um petralha. Nélson Rodrigues? Um tarado, uma ameaça à moral e aos bons costumes, um risco à família brasileira, deve ter pensado, com certeza, o “gênio” de Rondônia. 

Voltando a falar sério, Euclides, por sorte, foi meio-censurado. Tivesse o índex resistido, sua obra-prima, “Os Sertões”, teria que ser rasgada em parte para extrair dela o trecho final, denominado “A Luta” (e não “Na Luta”, como consta no index, mas isso é um detalhe). Já Rubem Fonseca, esse teve todas as suas obras incluídas na lista, uma delas, “O Seminarista”, duas vezes, para não ter risco de dúvida ou engano. Parte das obras da "lista negra" estão no rol de livros obrigatórios para vestibular de 9 entre 10 universidades brasileiras, mas isso é apenas um detalhe, pela ótica do censor (ou censores) sentado na Secretaria de Educação de Rondônia.

A repercussão da bobagem fez a bobagem virar pó.

Mas, com certeza, este não foi o primeiro nem será o último ataque à cultura, à força da palavra e ao livre pensamento. Exemplos disso não faltam ao longo da história. Livros queimados, outros censurados, seja pelo obscurantismo da fé, da ignorância ou do dogma político. Por isso, devemos estar atentos e vigilantes. Durou pouco, mas durou o suficiente ...
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