Nem juiz, nem jornalista

Um abraço polêmico

No caso da reportagem exibida pelo “Fantástico” no domingo retrasado sobre a vida de transexuais em presídios, a maior vítima foi a informação.

Isso é fato.

Na reportagem, exibida domingo, em horário nobre, o médico Dráuzio Varella abraça a transexual Suzy, comovido pelo fato dela não receber visitas na cadeia há oito anos, abandonada até pela família. Segundo a reportagem, Suzy, ou Rafael Tadeu de Oliveira dos Santos, foi apresentada como uma vítima do preconceito que atinge transexuais também no sistema prisional. Que o preconceito existe, é fato. Um fato triste e lamentável. Tanto que as imagens do “Fantástico” comoveram muita gente. Suzy passou a receber cartas, visitas e até foi alvo de uma “vaquinha”, para arrecadar dinheiro para ajuda-la na vida atrás das grades. Dias depois, o caso ganhou novo rumo. O site “Antagonista” revelou que Suzy está presa por um crime bárbaro, condenada pela Justiça por estuprar e matar um menino de 9 anos. A polêmica ganhou fôlego e dominou as redes. Gente contra, gente a favor. O maior Fla-Flu. Como Dráuzio, “Fantástico” e Rede Globo omitiram essa informação? Não sabiam? Sabiam? No centro do tiroteio, Dráuzio Varella publicou uma nota nas redes social, com a seguinte conclusão: “Não perguntei nada sobre os delitos, sou médico e não juiz.” Simples assim?

Não, muito pelo contrário.

O cerne da questão é um só: independentemente dele ter o direito de abraçar quem quiser (e a cena do abraço foi pungente, carregada de emoção), é importante saber, na prática, se Dráuzio tinha a informação sobre a condenação de Suzy ou não? 

Se tinha, porque não a tornou pública? Ora bolas, em tempos de informação 4.0, a condenação de Suzy ia ser revelada uma hora ou outra. Ao informar ao público do fato, Dráuzio (ou a produção do “Fantástico”) mostraria transparência e obedeceria a uma regra do jornalismo: toda informação deve estar inserida em seu contexto. Jargão da imprensa, contexto é quando um fato é colocado em perspectiva, com começo, meio e fim, causas e efeitos. Ou seja, mostrado dentro das circunstâncias em que ele ocorreu ou está inserido. Ora bolas, Suzy não nasceu na cadeia, ela foi colocada lá por algum motivo. Seria mais ético e mais honesto informar que motivo foi esse. É como a CBS, NBC ou CNN fazerem uma reportagem sobre a dieta de Charles Manson na cadeia e não citar a morte de Sharon Tate. Então, Dráuzio sabia ou não?

E se não sabia? Aí, ele (ou a produção do “Fantástico”) incorreu em um erro primário. Não fez a chamada "lição de casa". Comecei no Jornalismo como repórter de polícia, porta de entrada dos “focas” nas Redações dos anos 70 e 80. Uma das primeiras regras que aprendi era saber, de antemão, o crime do qual o suspeito ou condenado era acusado. Lia B.O’s, inquéritos, processos. Entrevistei ladrões, assaltantes, traficantes, assassinos, estupradores, estelionatários, homens, mulheres e transexuais, todos com a distância crítica que a profissão exige e com objetividade. Mesmo quando o crime cometido não era o objeto central da reportagem, sempre achei ético citá-lo, para que o leitor (era uma época dominada pelos jornais impressos) tivesse o contexto da informação. Hoje, o Jornalismo mudou bastante. Mas, cá entre nós, ainda considero ético informar bem o leitor, embora, muitas vezes, atualmente, se privilegie a informação mais como entretenimento do que como fato, como notícia relevante e bem contada.

Aí Dráuzio diz que é médico, não juiz ...

Pois é, nesse caso também não foi jornalista, embora estivesse atuando como um. Sou admirador do Dráuzio Varella. Leio seus textos, li seus livros, vejo suas entrevistas. Considero Dráuzio um exemplo positivo, um cara humano, uma voz sensata. Mas, nesse caso, ele errou. Tivesse um “foca” meu cometido um erro desses, levaria um “sabão” para não esquecer jamais. Melhor ter um colega bravo com você do que levar ao público uma meia-verdade, uma informação imprecisa. Não sei se por omissão ou incompetência, mas, nessa, Dráuzio (ou a produção do “Fantático”, formada, creio eu, por jornalistas) errou. E errou feio. Errar, como todos sabem, é humano. Mas é preciso, antes de tudo, reconhecer o erro e, mais importante, aprender com ele.

Segue o baile ....

PS: Esse texto passa ao largo do preconceito com os transexuais, dentro e fora do sistema penitenciário. O preconceito é real, mas é tema para outra hora. O foco desse texto é a produção jornalística e as regras que devemos obedecer perante o público consumidor de informação. É textão. Mas boa leitura
Nem juiz, nem jornalista Nem juiz, nem jornalista Reviewed by blog dois pontos on 11:40 Rating: 5

Um comentário:

  1. Parabéns por esse artigo sensato e muito esclarecedor, que traz o ponto de vista do bom jornalismo, aquele que informa a verdade, dos a quem doer, sendo convergente aos princípios básicos do jornalismo. Um erro (seja da emissora, seja do autor da matéria) não retira o brilho e a importância de quem é Drauzio Varela. É preciso sim separar essas coisas e não destruir passionalidade uma excelente pessoa! .

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