A boca fala do que o coração está cheio

"Lembranças", de Luiz Antonio Fischer


Existem gênios precoces. Mozart, Pelé, Stephen Hawking ou Jacob Barnet, um pirralho que, antes dos 12 anos, se dedicou a contestar as teorias de outro gênio, Alberto Einstein. Existem gênios tardios, cuja realização floresce ou é reconhecida com o tempo. José Saramago, Miguel de Cervantes, Raymond Chandler ou Momofuko Andro, pouco famoso no Brasil, mas que inventou, nada mais, nada menos, o macarrão instantâneo, o popular miojo.

Eu penso: se a regra pendular vale para os gênios porque não valeria para nós, pobres e comuns mortais?

O tempo, sempre o tempo, tema que me absorve desde criança, me veio a cabeça, com essa avalanche de nomes, ideias e estranhas sensações, ao folhear “Lembranças: Bom Demais e Divertido!”, livro em que o jornalista Luiz Antonio Fischer reúne crônicas e artigos públicos em jornais e revistas do Vale do Paraíba entre 1996 e 2017, longos 21 anos. Presente do autor, o exemplar veio com dedicatória e tudo na semana passada.  Com extrema vivacidade, os textos de Fischer vão de amores a reflexões políticas, de memórias a citações musicais (Diana Krall, a quem adoro, é presença constante), de flagrantes do cotidiano a instantes de pura poesia em forma de prosa. Pois é. Folheando aqui, lendo acolá, como faço com livros novos, descobri meu nome citado em um dos artigos. Citado a esmo, sem mais importância, uma referência cotidiana. Páginas à frente, apareci de novo, agora ao lado do nome de um amigo querido, Marcos Meirelles.

Tirei uma foto com o celular e mandei para o Fischer, com um tom brincalhão de reprimenda: amigo, você precisa escolher melhor suas referências.

Brincadeiras à parte, meu nome surgido assim, do nada, mexeu comigo. Não que eu me dê importância alguma. Não dou. Mais do que ninguém sei da minha nulidade, atitude que alguns tomam como falsa modéstia. Não é. É realismo, algo que me envolve como uma segunda pele. Conhecer a nossas limitações e a nossa mediocridade é essencial para irmos em frente. E não existe outro caminho sem ser em frente. Mas, voltando à linha central dessa reflexão, a descoberta do meu nome no livro me fez sentir um personagem, um verbete de enciclopédia, enciclopédias como aquelas em que, quando criança, folheava em busca de animais extintos ou alguma referência necessária para uma tarefa de escola. Barsa, Delta Larousse, elas faziam a vez do Google décadas e décadas atrás, em um mundo off-line, linear. Me veio à mente meu nome em meio a tantos verbetes com H, essa letra estranha, a única do novo alfabeto sem valor fonético. Habitat, Hambúrguer, Hamas, Harry Potter, Hanna Arendt, Harrison Ford, Harpa, Havaí, Heitor, Heleno de Freitas, Helicóptero, Hemisfério, Henry Ford, Heráclito, Hércules, Herman Melville, Hidrante, Hidrogênio, Hidroxicloroquina, Highlands, Hipocrisia, Hipopótamo, Hiroito, História, Holanda, Homem Aranha, Homero, Homus, Hong Kong, Honoré de Balzac, Hóquei, Horóscopo, Horrível, Hóstia, Hot Dog, Hulk, Humprhey Bogart. Tem Hitler, mas esse, por convicção, eu pulo. H, da Bomba. H de Hiroshima, da cidade destruída pela Bomba A. A lista é grande.

E eu lá, mais um entre tantos nomes com H ...

Meu caro Fischer, agradeço a lembrança, mas, sinceramente, não mereço. Tanta gente melhor no mundo e você foi escolher a mim? Mesmo assim, de passagem, como ao acaso, não mereço. 

Lido, guardo o livro na estante, sabendo que ali estou como em um esquife, condenado ao embalsamamento precoce, à rigidez do tempo, ao frio estado da palavra escrita em uma prateleira, um 3x4 eterno, não importa quanto eu envelheça, mude, tome outro ruo na vida.  Logo eu, que, ao contrário de você, Fischer, de saudosista não tenho quase nada. Eu quero sempre viver para frente, livre da rigidez do tempo, que insiste em me aprisionar. Tenho pressa do novo. E, agora, tenho pressa para que alguém, qualquer um, encontre, com urgência, esse livro na estante. Abra, folheie, leia e, por fim, me liberte.

Me liberte ... 
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