Toda censura é burra




Meu pai, Hélcio Costa, médico, foi um dos coordenadores do combate à epidemia de meningite que atingiu o Vale do Paraíba nos anos 70.

Foram dias difíceis.

Pouco via meu pai. Ele saia cedo, voltava tarde, passava o dia em Tremembé, onde, no Hospital Bom Jesus, foi instalado o QG do combate à doença. Em casa, ficou mais calado. Nossa rotina mudou. Regras de higiene mais rígidas foram adotadas. Aulas foram suspensas. Com o aumento das mortes, eu, minha irmã e minha mãe deixamos Taubaté e fomos para nossa terra, Piraju, longe do epicentro da doença. Numa visita, em conversa com meus tios, meu pai narrou as dificuldades de conter o surto e falou sobre a censura sobre a doença. Nada sobre meningite podia ser publicado, por ordem do governo. Era uma epidemia invisível. Medida que dificultava o trabalho de prevenção, essencial. Leitor do “Estadão”, meu pai mostrou: no lugar dessa receita de bolo devia estar a notícia dos riscos que todos corremos. Foi ali, numa receita de bolo, que tive meu primeiro contato com a palavra “censura”.

Voltei a cruzar com ela diversas vezes como jornalista. Aprendi a combate-la e descobri que, mais que truculenta, toda censura é, antes de tudo, burra.

Isso me meio à mente ao ver as tentativas de Jair Bolsonaro para atrapalhar a divulgação dos números de mortes causadas pelo novo coronavírus. Números e dados são essenciais. Sem eles, ações viram castelos de areia. Mas, Bolsonaro quis mudar a realidade. Deve ter pensado: como pode tanta gente morrer por uma “gripezinha”? Se vão morrer, que morram em silêncio, invisíveis.

Para sorte nossa (e azar de Bozo), não estamos mais em uma ditadura, como nos tempos de Garrastazu Médici e Ernesto Geisel. A “matemágica” do (des) governo ruiu. O STF determinou que a contagem real de casos fossem retomada. Órgãos de imprensa se uniram para divulgar seus próprios números, baseados nos dados (públicos, é bom frisar) fornecidos pelos Estados. A vinheta de plantão do Jornal Nacional passou a interromper as agruras de Griselda, Renê e Tereza Cristina para a atualização do número de mortes no país. No Congresso, o ministro interino da Saúde, general Eduardo Pazuello, constrangido, teve que desdizer o que havia dito ao tomar um pito dos deputados. Não era bem assim, disse, ao ver seu nariz crescer tal qual Pinóquio. Enfim, houve uma reação ampla da sociedade e das instituições a mais essa burrice de Bozo.

É caso de agradecer: obrigado, presidente, você, com sua incompetência, fez reagir um Brasil que parecia tão apático. Talkey?
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