10. Histórias da quarentena: listas






10.    Histórias da quarentena: listas

Até aqui tenho escapado, mas não sei até quando.
Afinal, o cerco é grande e vai que me pega uma hora no contrapé ...

Pois é, desde o início da pandemia, o Facebook foi invadido por uma febre de listas e listas de 10 mais. Livros, discos, filmes. Virou mania. Tanto que acabou gerando uma versão B, menos chique, mas divertida: lista das 10 músicas mais bregas que a pessoa gosta. Até minha mulher, Letícia, sucumbiu à onda. Fez a lista de 10 capas com seus discos preferidos. Se divertiu. Alguns amigos me incluíram na corrente, mas, até agora, tenho feito cara de paisagem. Com sua sabedoria mineira, Luiz Carlos Teixeira, teve o cuidado de consultar primeiro, antes de me por na roda. Fui direto, como fazemos com os amigos: Luiz, me deixa de fora. Outro amigo, Ricardo Julio, foi de bate-pronto. E eu apareci no desafio dele, culpa da intimidade de anos de amizade, trabalho lado a lado, nos tempos de “Folha”, encarando muitos "pescoções" madrugada a dentro. Explico a minha resistência. São dois os motivos. O primeiro é uma timidez aguda, que muita gente acha difícil de acreditar, mas que é verdadeira. O segundo é que acho difícil fazer listas. Elas mudam com o vento, seja ele da idade, seja do ânimo do momento. Outro amigo, Ferreira Leite, me pediu para cravar a música da minha vida. Não tenho. Ou melhor, tenho, mas várias, uma trilha sonora que começa aos 5, 6 anos de idade. Uma? Não consigo.  Aos 6 anos, me apaixonei por Rita Pavoni, por causa de “Datemi un Martello”. Aos 12 queria tocar no Led Zepellin, depois no Pink Floyd. Aos 14 namorava ao som de Elton John. Caetano, Chico, Milton, Gil, Novos Baianos, Sex Pistols fizeram a cabeça no final dos anos 70. E a lista continua crescendo. Gosto de rock, mas escuto MPB. Rolling Stones, U2, Rod Stweart, Rita Lee e Frejat coexistem com Zeca Pagadinho, Tim Maia, Vanessa da Matta, Milionário e José Rico. Villa-Lobos, Vivaldi  e Dvorák dividem a playlist com “Evidências”. Fazer o que? Sou curioso e adoro música. Escolher uma, que resume tudo? Não consigo. A vida é longa e generosa, aprendi com a minha mulher, para ser congelada em uma coisa só. Ou em uma lista. Uma música? Dez discos? Dez livros? Tenho que admitir, não tenho vocação para Rob Fleming, personagem de “Alta Fidelidade”, de Nick Hornby, vivido no cinema por John Cusack, que passa os dias fazendo listas, Top 5, sobre tudo e mais um pouco. Sou anárquico demais para isso.

Segue o baile ...
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