12. Histórias da quarentena: gente (1)




12. Histórias da quarentena: gente (1)


O que vou dizer já virou lugar-comum, mas vá lá: a pandemia deixou as pessoas distantes, mas também mais próximas. 

 

Conectadas, solidárias, amistosas, leves, saudosas do tempo pré-corona, do tempo dos abraços, do café na padaria, das baladas, do chope no final de tarde. A ausência de tudo isso, a ausência da nossa vida normal, nos tornou, quase sempre, mais sensíveis. Isso aflorou o lado bom em muita gente. Tentamos, e como tentamos, romper as barreiras do isolamento para falar com o mundo. Ou, pelo menos, quem sabe, com o vizinho. Reuniões on-line tomaram conta das agendas. Lives viraram eventos. Festas e comemorações, cada um no seu quadrado, se tornaram mania. Mas, mais que isso, passamos a falar mais e com mais gente. Com amigos antigos. E com novos amigos. Ilhadas, famílias se amaram, brigaram, resolveram pendências, tudo à distância. Pelo celular. Pelo laptop. Pelo PC. Por sinais de fumaça. Pela janela ou pela varanda, muita gente soltou a voz para o mundo. Se tudo acabasse ali, vítima de um vírus assassino, pelo menos deixaríamos no ar, suspenso, uma digital de humanidade, de gente que gosta de gente, de gente que não vive sem gente por perto. Com mais tempo, buscamos contato. Palavras de carinho cruzaram as barreiras da distância., os vales do silêncio, os abismos criados pelas regras da quarentena.  Juras de amor vazaram da nuvem, como uma chuva abençoada de mil megabytes. Distantes, buscamos, cada vez mais, sermos humanos. Humanos. Mais do que definem os dicionários e os livros de ciência. Mas que representantes da única espécie animal de animal bípede do gênero Homo ainda viva. Buscamos mais que as representações sociais, mais que as regras pré-pandemia. Náufragos de nossas bolhas, lançamos garrafas e garrafas ao mar imaginário. Pedidos de socorro, cartas de amor, declarações de princípio, simples mensagens dizendo: eu estou aqui, eu existo, estou vivo. Náufragos, nos recusamos a nos entregar às ondas, enfrentamos o furor da procela, lançamos no mar nossas esperanças, nossos medos, nossa humanidade. Ao mar virtual. Aos mares. Todos eles. Alguns, nunca dantes navegados, como canta a poesia épica de Luiz Vaz de Camões, nos levam muito além da Taprobana. Navegar é preciso? Viver?

Segue o baile ...
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