7. Histórias da quarentena: a cidade



7.    Histórias da quarentena: a cidade

Isso vai soar estranho, mas vá lá ...
Confesso: tenho saudade dos primeiros dias da quarentena, a cidade vazia.


Saia de casa bem cedinho para comprar pão, de vez em quando, e enfrentava as ruas desertas. Sem gente, sem carros, vazias. De vez em quando, outro aventureiro, como eu. Um porteiro de prédio. Um guarda de rua. Outras vezes, ia e voltava sem ver viva alma. Tinha a sensação de um mundo diferente, imerso em silêncio. Um silêncio que rompia barreiras, entrava pelas varandas, mergulhava pelas janelas, me acompanhava até dentro de casa, como se mundo vivesse uma eterna manhã de domingo, cedinho, quando a cidade ainda está adormecida em razão do cansaço do sábado. Mas, pouco a pouco, o mundo voltou a despertar. No início, tímido. Depois, voraz. Hoje, as ruas estão frenéticas desde muito cedo. Muita gente. Muita. Ontem, cruzei o centro a pé e fiquei surpreso: eu, andarilho urbano por natureza, nunca o tinha visto tão lotado. Calçadas cheias, filas. Gente indo e vindo. Trânsito parado. Buzinas. Rompidas as restrições rígidas do isolamento, rompido o dique, as pessoas ganharam as ruas. Muitas, como eu, por necessidade. Trabalho. Compras. Urgências. Outras, não sei. Não julgo o que desconheço. No auge do isolamento, encontrei um homem de quase 80 anos, de bengala, encurvado, andar cansado, grupo de risco de carteirinha, que confessou: saia de casa todos os dias, ia andando até o Terminal Central e pegava ônibus de volta para casa. “Se eu não sair, eu morro”, disse. A morte em casa, mergulhada na solidão, era, para ele, um fantasma maior que a morte pelo vírus vindo da China. Seguimos, ambos de máscara, cada um para o seu lado: eu, imerso no silêncio das ruas; ele, em busca de algo que lembrasse que estava vivo. E que queria continuar assim por mais algum tempo.

Segue o baile ...
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