A foto do meu pai


Esta é a primeira foto que fiz na minha vida. Tinha 6 anos. 

Havia acabado de ganhar minha primeira câmera, uma Kodak Rio 400, e estava louco para fotografar alguma coisa. Essa "alguma coisa" foi meu pai, Hélcio, se servindo de feijão no almoço em casa, em Cruzeiro. Naquele tempo as famílias almoçavam e jantavam juntas. Aquela cadeira vazia ali atrás era onde eu sentava, mas, por algum motivo, dei a volta na mesa para fotografar meu pai. Tenho diversas fotos do meu pai e com meu pai, diversas, mas esta, por ser a primeira, é a que mais gosto, mesmo meio apagada, em preto e branco, tremida, um tanto fora de foco. É ela que procuro todo ano, a cada Dia dos Pais.

Meu pai morreu há mais de cinco anos, mas não passa um dia sem que esteja presente em minha memória, nas minhas atitudes e no que sou hoje.

Próximos na minha infância,  nos afastamos quando atingi a adolescência. Divergências pessoais e políticas lançaram uma nuvem escura sobre nós. Cada um se entrincheirou do seu lado. Fizemos as pazes anos depois, quando passei a acompanhar meu pai, doente, ao hospital. Ali, sentados lado a lado, redescobrimos um ao outro, passamos a aceitar as nossas diferenças e descobrimos, afinal, mais coisas em comum do que imaginávamos. Mais que pai e filho, viramos amigos, uma relação que ficou mais estreita em seus últimos anos de vida. Estive com meu pai até pouco antes da sua morte. Conversamos e rimos tão alto que levamos um puxão de orelhas da enfermeira-chefe da UTI. "Isso é um hospital, tem gente doente aqui", disse ela, rindo. Logo ele, médico, levando um pito desses na UTI. Me despedi dizendo que voltaria no dia seguinte cedo para vê-lo. Voltei, mas para chorar a sua morte. Havia perdido o pai e um grande amigo. Demorei para superar a dor. Hoje, penso nele com saudade e gratidão.

Logo após a sua morte, encontrei fotos minhas, guardadas por ele em uma gaveta. 

Bebê, criança na escola, adolescente, adulto. Algumas nem conhecia. E achei uma cópia da foto aí de cima, a primeira que fiz, de um almoço perdido no tempo. Eu tinha 6 anos e estava louco para fotografar alguma coisa com minha câmera nova. A "alguma coisa" foi meu pai.

Segue baile ...



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